segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sinto nele mais do que paixão. Um carinho sem fim, uma esperança forte e de luz; uma sinceridade capaz de me arrastar sem eu perceber.
Os toques perfeitos, a energia envolvente de cada abraço, a luz dos olhos e da alma...
Ahh, acima de tudo, a alma...tantas descobertas a serem feitas, tanto sentimento e prazer e alegria a serem sentidos. Não, não se diz não ao incontestável...o amor é a maior razão que podemos ter. Se vive e sente, pronto. Se dança, canta, sorri e sorri com os olhos. Enquanto por essas janelas escorrem a luz dos novos dias e um brilho revive, o fogo volta forte e queima, como a quem esse é o mair dos prazeres, e deleita-se então.

As perguntas existem, mas penso no amor e companheirismo raros, penso no que tende a se tornar tão claro e limpo e lindo. E a única conclusão é para deixar acontecer, assim como está indo. Sem pressa, teremos um castelo, um reino, uma vida em duas. Tudo flui em seu curso natural.



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

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e eis que cato assim, no meio do meu computador e de folhas espalhadas, algumas notas e besteiras.
coisa que nao gosto é de expor assim meus sentimentos, algumas coisas, alguns pensamentos. Para eles estarem aqui, é pq são passado. Pq aprendi que o passado não mais me comove: não mais me perturba ou tira meu sono. É só a lembrança de que vivo até hoje. Por isso, as coisas não perdem o seu valor; mas seus significados mudam, comigo e com o tempo. Então elas já são livres para voarem por onde quiserem, conquistaram seu próprio espaço.

# 8


Se vc ja foi além da verdade
então é só mais uma mentira

Vanessa Dalla

Vazio completo.


Vazio. Hoje já não sabe mais seu significado, pois o vazio que era seu já está cheio, de suas lembranças, amarguras, rancor, e este lhe consome, lhe puxa para dentro como um grande centro gravitacional, e quer cada parte que lhe convém. A cada vez que vai mais fundo, provoca mais feridas, encontra mais podridão, e se preenche dessas partículas do mal. Aliás, se há alguma influência de uma espécie de demônio nesse ser desafortunado, eu não deixaria de acreditar. Não há mais visão de liberdade, tampouco objeção á prisão. Ele só desejaria ver o dia como foi um dia, um dia de luz sem trovões ou raios em sua mente. Sua cabeça lhe dói que a deseja perfurar para aliviar este sofrimento e pressão, nada poderia lhe incomodar mais. Assim, fica escondido em seus recantos, não mais expõe os sensíveis olhos à claridade obscurecida. Se demônios pairam em seu cômodo escuro e úmido, mais ainda eles estão lá fora, não permitindo que volte a admirar o que um dia foi o motivo de sua vida. Pois a única beleza louvável no mundo era a natureza, e o que lhe fazia correr o sangue eram as intempéries do coração. Ambas destruídas, não entendia mais porque estava a deixar seu coração negro ainda pulsando. Sabia que não podia mais haver luz, ou paz. Nunca mais dormiria ou teria sonhos sobre uma relva aquecida, e decidiu dedicar-se a esta escuridão, entregando as últimas fagulhas de sua alma ao vazio que lhe procurava incessantemente. Não reagiu à dor nem ao desespero, nem quando o prenderam em roupas apertadas ou o ataram na cama. Nem sabia porque faziam isso com ele, apenas diziam que precisava disto. Nunca acreditou, e seus acessos de fúria, derramando berros ininteligíveis e agoniosos, tornaram-se freqüentes. Se via a luz por uma brecha, não pensava na sua liberdade, mas tinha ódio e queria acabar com ela. Foi assim que chamou para junto de si estes seres do submundo, raivosos e sedentos, que ele havia achado que era apenas um vazio em seu corpo, não sabendo que seu corpo estava cada vez mais cheio de um negrume cheirando a enxofre, sempre mais cheio desta melancolia e de pensamentos que outra hora lhe foram tão refutáveis. Finalmente, nada mais viu, era tudo escuro, todo o ambiente dominado pela presença maléfica de forças que ele não poderia controlar, e o ar foi escapando-lhe dos pulmões, a mente perdeu o resto de razão e o coração por fim aliviou-lhe os anseios da morte. Sentiu que agora sim, era vazio.

E estas linhas mal escritas me vieram à mente, lembrando que um dia, ele já foi eu.

# 7


Sabe quando tanto faz?
Tanto faz se tem chuva ou sol, se está calor ou tem vento
Tanto faz se estás sozinha ou acompanhada
Tanto faz se tem fome ou não, se tem salgado ou doce.
Tanto faz a música, tanto faz a roupa, não precisa combinar.
Tanto faz se é dia ou noite, os sentimentos ruins são os mesmos
Tanto faz a Lua, tanto faz a maré, tanto faz se a areia é fina ou grossa.
Tanto faz a sua presença para alguém, tanto faz
Nada têm mais importância, quando chega o tanto faz
Se vive ou morre.

Vanessa Dalla
26.04.2012

#6


Eu pareço tão ocupada. Mas não estou.
Estou só admirando a beleza do tempo.



Vanessa dalla
08.04.12

sábado, 11 de agosto de 2012

Sábado poético

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa - Em linha reta

Eterna insatisfação humana


Como tudo que era bom, um dia desvanece. Como a música predileta e perfeita, depois de escutada 50 vezes, encontram-se os defeitos. A pequena desafinação ali, o tom que não deu certo lá.

Até parece chantagem e mania de perfeccionismo. Mas quem não é perfeccionista quando se trata do alheio? A gnt é sempre perfeito e deve continuar sendo aos olhos do outro. Ai de quem julga, ai de quem destrata. E daí lá vamos nós, no menor tropeço alheio, fazer de conta que tropeçamos numa montanha inteira. Exagero, superficialismo, exigências demais, cegueira, seja o que for. O fato é:


A eterna insatisfação humana.



Salomé... - Caravaggio

quinta-feira, 2 de agosto de 2012


Não posso olhar, e ficar imune, não reagir, não querer gritar.
São olhos de libélulas, de oceano, mar fundo. Escondem todos os segredos do mundo. Não posso, jamais, encarar olhos mais belos. São aqueles, os que levam para o infinito. Que trazem a angústia e a dor, para logo depois mostrar o alívio.
Não tem como não ser marcante. Cada pedaço naquele rosto é feito de perfeição. As bochechas levam a expressão junto, sempre profunda, pensante, além. E os lábios, às vezes mostram um sorriso, mas mantêm a serenidade. Bem que eu gostaria de esquecer, deixar pra lá. Mas pensar em esquecer, não é a mesma coisa que lembrar?
Lembro das mãos, eram firmes e seguras. As sensações não somem assim, não desaparecem. Tão simples. Tão inseguro. Tão...nós. Mas antes eu tinha uma certeza, um pressentimento. Parece que se esvaiu.
Mas os olhos são os mesmos. Antes, cheios de significados. Agora, resta um vazio que não sei interpretar, lembro da última vez que os vi. Foi num momento inesperado, não era para acontecer. De longe, e disfarçando, nos encaramos. Os olhos se encararam, alguns segundos que parecem horas na minha lembrança. Pelo resto da noite, não soube suportar a dor da visão, da distância. O que eu faria se isso acontecesse de novo?
Teria o mundo nos meus braços. Teria um sentimento real, profundo, antigo. Saberia ler aqueles olhos e suportar aqueles lábios. Escorregaria numa fantasia nunca imaginada. As mãos, tocariam nas minhas? As leis, seriam reais?
Bastariam os teus olhos, de novo, perto dos meus...e eu entenderia a dor, o silêncio, o amor.

Violetta Rhea

.como o céu

Das profundezas do baú,
das profundezas dos sentimentos,


da borda d'alma.

Vanessa Dalla

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Resenha - Nas Montanhas da Loucura


O cenário é o gelado Continente Antártico, fascinante e indescritível, que dominava muitos dos anseios de Lovecraft. Foi na desolação branca que o autor incorporou muitas de suas criaturas bizarras, dando origem à uma história completa, surpreendente e desesperadora.

Criaturas Ancestrais
As coisas ancestrais, os medonhos shoggoths, galerias subterrâneas de terror de éons passados, e abismos e platôs infernais dão corpo a primeira e única novela com mais de 100 páginas de H. P. Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura.
Por ser mais extensa, Lovecraft abusa do seu metódico estilo de escrita, com incontáveis descrições e detalhes de todo o ambiente. É a obra de maior aproximação do gênero de ficção científica, mas sem deixar de lado o sobrenatural e as invocações extraordinárias.


A história é narrada em primeira pessoa, pelo ensandecido geólogo William Dyer, que descobre que uma nova expedição está se preparando para ir à Antártica; mediante o fato, resolve expor todos os terrores que lá passou, a fim de impedir essa nova busca, e manter a paz no mundo.

O ambiente é a Antártica, e Dyer relata os acontecimentos de sua expedição científica ao continente. Logo são feitas descobertas intrigantes e novas buscas revelam a possível existência de coisas alienígenas.
 Em busca de respostas ao achado e a um massacre ocorrido no acampamento, Dyer e seu colega Danforth exploram a área de avião – e decidem por fazer uma busca do outro lado das montanhas abissais, que forneciam a base para o acampamento. E é nessa exploração que as maiores descobertas são feitas.

Com muitos detalhes, acompanhamos a descoberta de uma cidade ancestral, de proporções magníficas, construções geométricas e incontáveis túneis e galerias subterrâneas. Por um bom tempo, Lovecraft se detém na descrição da horrenda cidade e as deduções dos exploradores – sobre os antigos moradores do local – que datavam de 500 mil anos atrás, no mínimo. São feitas algumas citações das ilustrações de Nikolai Rerikh e também sobre Poe. Por um certo período, a narrativa fica maçante, e com amplo uso de termos técnicos.
Pintura de Nikolai Rerikh

É depois da página 100 que a história toma um novo fôlego e se torna realmente curiosa e quase agonizante. O narrador e Danforth entram em confins da cidade, e encontram rastros de vida. De fato, encontram colônias de seres jamais vistos antes, porém, inofensivos. Mas encontram outras coisas mais indescritíveis e ameaçadoras também. Descobrem outras formas de vida – certamente, alguma Criatura Ancestral – na beira do Abismo do mundo e mais, se deparam com terrores vindos das profundezas dos cosmos, criações imundas que apenas uma mente doentia é capaz de lembrar ou imaginar. E no final, o horrendo grito inumano fica ecoando na nossa cabeça: “Tekeli-li! Tekeli-li!”.

É uma história fundamental que apresenta seus laços com as outras obras de Lovecraft, elucidando maiores detalhes sobre os Antigos e a criação dos Shoggoths, bem como uma teoria sobre a criação na vida da Terra, e em certo momento, questionamentos existencialistas.

E como toda boa obra da Editora Hedra, o livro ainda consta com um Apêndice, que apresenta uma carta do autor e a tradução de um soneto de Fungos de Yoggoth.



Nas Montanhas da Loucura
H. P. Lovecraft
Ed. hedra
130 páginas

quarta-feira, 25 de julho de 2012

25 de Julho, Dia do Escritor


Parabéns então a todos que se aventuram pelas letras mundo afora. 
Tem os que escrevem profissionalmente, os que escrevem para serem profissionais; tem os que escrevem por obrigação, ou por mera distração; ou que escrevem assim, almejando algum segredo íntimo, ou que escrevem para chocar o mundo.
Seja como for, escrever é bom e faz crescer. Faz viajar, criar, imaginar...
escrever é amar.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Só não tem quem não quer.

Mais uma indicação para bons downloads. Tem bastante coisa mesmo, em grande parte textos e artigos libertários.
Para instigar, facilito dizendo que podemos baixar ali Aldous Huxley, Emma Goldman, Emile Durkheim, Guevara, Malatesta, Nietszche, George Orwell, Thoreau, Tolstói, Lenin, Bakunin, Oscar Wilde, Prouhdon, Kropotkin, entre outros menos conhecidos, nacionais e vivos, e mts artigos.
Sério, não deixa passar essa. hehehe

No país em que um mini livro custa 20 pilas e tais obras ainda são meio raras de se achar, tal acervo se faz necessário e útil.

Boas leituras.

Biblioteca Pública Independente

Penso, logo, concluo.

A Pele da Alma


Do mesmo modo que os ossos, os músculos, as vísceras e os vasos sanguíneos estão envoltos por uma pele que torna suportável o aspecto do homem, assim também as emoções e paixões da alma estão envoltas pela vaidade: ela é a pele da alma.


O Sono da Virtude


Se a virtude dormiu, levantar-se-á com mais frescor.


Delicadeza da Vergonha


Os homens têm vergonha, não por terem algum pensamento vil, mas sim quando imaginam que se atribui a eles esses pensamentos vis.


A Maldade é Rara


A maioria dos homens está muito ocupada consigo mesma para ser má.






Transcrição de "Humano, demasiado humano", Nietzsche, 1878.

O Cristianismo como Antiguidade

Quando, numa manhã de domingo, ouvimos tocar os velhos sinos, nos perguntamos: como é possível? Isso diz respeito a um judeu, crucificado há dois mil anos, que se dizia filho de Deus! Falta a prova para semelhante afirmação. Certamente a religião cristã é, em nossa época, uma antiguidade, um vestígio de um distante passado, e o fato de que se possa acreditar nessa afirmação - enquanto, de outro modo, nos tornamos tão rigorosos na averiguação das afirmações - talvez seja a peça mais antiga dessa herança. Um Deus que gera filhos com uma mulher mortal; um sábio que recomenda não trabalhar mais, não julgar mais, mas estar atento aos sinais do iminente fim do mundo; uma justiça que aceita o inocente como vítima substituta; alguém que ordena a seus discípulos beber seu sangue; orações para pedir milagres; pecados praticados contra um Deus e expiados por um Deus; medo de um além, do qual a morte é a porta; a figura da cruz como símbolo, numa época em que já não se conhece o destino nem a ignomínia da cruz - que vento horripilante nos vem de tudo isso, como que saído do túmulo de um passado antiquíssimo!
Quem haveria de crer que ainda se acredita em semelhante coisa?

Transcrito de "Humano, demasiado humano" de Nietzsche, 1878, inclusive o título.
Capítulo 113.

Obra de Caravaggio

Enfim...

Eu disse que ela viria ;) Agora faltam-me livros. E claro, Tolkien ganhou uma prateleira exxclusiva. Acima, meus troféus do hipismo o/

Decidi organizar por tamanho e espessura, mesmo, mas os mesmos autores ficam juntos.

Estante da Vanessa

terça-feira, 12 de junho de 2012

Literatura fantástica brasileira

Ótimo artigo, que fala sobre o surgimento da literatura fantástica brasileira, e de como esses autores têm de encarar ainda muito preconceito e ladainha.
A literatura brasileira é riquíssima e vasta, com grande clássicos consagrados mundialmente. Infelizmente,  muita gente ainda tem a visão mesquinha de que é antiquada e deslocada - para não falar ruim.
É bom ver que mesmo em meio ao surto de estrangeirismos no Brasil, existem autores atualmente dedicados a levar nossa cultura adiante e de forma mística, ainda, além de facilitar o acesso à cultura pela sociedade.





segunda-feira, 11 de junho de 2012

Resenha "comparativa": Senhor dos Anéis x Guerra dos Tronos


Bem, não é difícil de achar por aí, textos que tentam comparar, pôr em pé de igualdade ou menosprezar um a favor do outro, Senhor dos Anéis (SdA) e Guerra dos Tronos (GoT)1. Sou fã adicta de Tolkien, e leitora costumaz de fantasia, então também me encantei por GoT. Mas vou tentar não ser tendenciosa ao SdA e ser justa – ok, justiça pode ser um conceito individual, mas tentarei fazer nos meus termos.

Gandalf em ilustração para O Senhor dos Anéis
- A se começar pelo uso da fantasia em si. Fantasia é aquela obra que faz uso de personagens ou seres de caráter mitológico, nascidos da imaginação do próprio autor ou tirados de lendas antigas. Pode ter importância secundária, ou tomar dimensões inconcebíveis. Basicamente, é isto que difere as duas obras.Tolkien usa a fantasia dentro da própria narrativa, o ambiente é totalmente fantástico e a sua presença é constante e imprescindível. Sem tal ambientação quase sem limites, muita coisa perderia o sentido e o contexto.  Já Martin, ao meu parecer, faz dela uso secundário. Os seres fantásticos e mitológicos estão ali, para dar o toque mágico, escuro ou tenebroso necessário para a impressão do leitor. Mas de modo algum eles são o motivo da obra – ou pense bem, os gramequins não fariam falta, e os Outros só servem, até agora, para dar medo e fazer parte de um desenrolar de trama.

- Outra característica importante é a avaliação das personagens, e vou me estender. Um livro só existe pq têm personagens, e personagens só existem porque têm um fim e um começo – e nesse meio tempo, uma evolução. E é a evolução que dá sentido pra tudo, não seria justo o Aragorn ser Rei sem ter lutado, ou a Daenarys ter os dragões sem ter sofrido. O final pode ser então a conquista do objetivo, ou obra da “justiça divina”, a redenção dos pecados ou a punição, a morte, enfim. E cada personagem tem seu meio de chegar até lá. Ambas estórias têm heróis e vilões. Mas Tolkien manipula (ou dá vida) as personagens de forma mais pueril e suave. Elas sofrem, e têm sentimentos humanos, mas geralmente é algo profundo, que faz tal pessoa se questionar, põe em dúvida a missão. Digamos que Tolkien dá mais heroísmo clássico (?) nos infortúnios dos coitados, bem como a recompensa é bela e grandiosa. Então, ao meu ver, as personagens se Tolkien se aproximam um pouco mais do sagrado e não são atormentadas por questões tão mundanas, são seres exemplares e geralmente honrosos, um pouco mais de beleza e suavidade. Já as personagens de Martin, elas me parecem arranhar, dão um sentimento mais forte de raiva, indignação, ou um carisma maior – mas isso quer dizer que elas são mais humanas, portanto, são mais sujas, apresentam mais conflitos éticos e essas coisas comuns, bem como a presença comum de bordéis, sexo, homoafetividade, e sentimentos mais feios são constantes, como a vingança , e o desejo de cabeças rolando por puro prazer – aliás, o prazer move muitas coisas ali, esse desejinho incoerente, rsrs. Até mesmo as personagens más do Tolkien são mais grandiosas e espertas – desde Morgoth que f**eu com tudo, até Saruman (seu faxineiro, rsrs), que em humilde simplicidade constrói aberrações inumanas mortais. Porém, parece-me que Martin trabalha um pouco mais toda essa inconstância humana e espírito de almas.

Khal Drogo para a série homônima da HBO

- complexidade e coerência da obra. Bem, até que não dá pra falar muito em coerência quando o assunto é Tolkien. Mas complexidade dá. Os terrenos de ambientação são inigualáveis. Tolkien moldou três eras longas e recheadas de mitos, lendas, heróis e anti-heróis, bem como explicou em epopeia o nascimento do mundo e de cada ser habitante da “atual” Terra Média. Confesso não ser perita em Martin. Mas até hoje nunca ouvi falar sobre como Westeros surgiu, ou da onde vieram os Outros. Existem passagens que tentam explicar e dão sugestões sobre o passado remoto de seu mundo, dando a ilusão de que um dia tudo vai se encaixar. Mas não. São passagens vagas e tu fica: “tá, e daí, o que veio depois?”, contrastando com toda a riqueza de detalhes e sofisticações tolkenianas. Além das línguas de Westeros, que sabemos que existem, mas até agora, nada mais2. Mas sobre Sindarin e Quenya existem quase dicionários deixados por Tolkien. Na realidade, não creio existir obra tão complexa quanto a história de Arda/Terra Média e seus povos.

Confesso que tentei ser imparcial, mas talvez não tenha dado. Minha predileção por tolkenidades é visível e tá explodindo do texto. Mas nem de longe eu quis falar mal ou depreciar GoT. Estou adorando a série, é envolvente e tudo o mais. Podem ler as resenhas abaixo ;)

E no fim, para não ficar no vácuo, a maior constatação de todas: não dá para comparar o incomparável – sem querer dizer que uma é melhor que a outra, porque elas são DIFERENTES, cada qual tem qualidades únicas e memoráveis. Acho que isso põe um ponto final, não é?

Tolkien e Martin, os autores.

Quem tiver objeções, manifeste-se.


Notas:
1. Por SdA identifico toda a obra tolkeniana, Silmarillion e etc. Li apenas até o segundo livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, da qual o primeiro livro é o Guerra dos Tronos - mas vou continuar - são 5.
2. Justamente por não ter terminado a série d'As Crônicas não posso afirmar que não existam explicações maiores e adendos. Mas até agora, não li a respeito - o que pode ser um engano confesso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Fúria dos Reis - Resenha


A continuação de A Guerra dos Tronos, o segundo livro da série “as Crônicas de Gelo e Fogo”, A Fúria dos Reis, exibe mais precisamente todo o talento de G. R. R. Martin. Nesse episódio, o Reino encontra-se em caos. Quatro (ou 5...) Reis tentam reinar onde a desordem prevalece e os ânimos se alvoroçam, e a trama segue se misturando com os destinos desses Reis, seus maniqueísmos e manipulações.

Nos Sete Reinos, predominam os saques e roubos, os incêndios e a destruição. Em Porto Real, cidade onde agora reina a pobreza, Tyrion segue com suas artimanhas surpreendentes, enquanto Cersei, má e altiva, governa em nome do tolo e cruel Joffrey. Robb Stark continua liderando seu exército até então vitorioso contra os Lannister, enquanto Stannis se alia a forças desconhecidas para a conquista do que reclama seu por direito.

No Norte, Jon tem de abandonar o grupo, lutando pela própria vida, enquanto as maiores ameaças para o Reino se moldam. Porém, lá no Leste, Daenarys atravessa desventuras e ameaça cruzar os mares em busca de sua coroa prometida, ao tempo que seus bebês crescem. Sansa e Arya vivem momentos de desespero e descobertas.

O enredo criado dessa vez é fantástico. Mas, embora Martin seja capaz de nos proporcionar ansiedade e curiosidade, também tem os capítulos de marasmo, dito os de Catelyn. Mas na maior parte do tempo, somos carregados para dentro dessas páginas com entusiasmo, conhecendo melhor esse mundo de glórias, desonras e traições que pairam por toda a história, onde vemos toda a miséria humana, mas também sua altivez, e o que menos se espera nos surpreende na próxima página; é todo esse mistério e essa trama de personagens complexas que faz da série de Martin algo merecedor de atenção, magnificamente ambientada numa Idade Média em grandes proporções e com toques de intensa fantasia, além de, talvez o mais atrativo para muita gente, o realismo que nos faz envolver com cada sentimento, nos trazendo o ódio ou a compaixão para determinadas personagens, avivando com maestria todo o ambiente, e nos fazendo crer habitar lugares já visitados pelas lembranças.








Ed. Leya
2011
656 páginas


quinta-feira, 24 de maio de 2012

A discriminação aos latinos chegou aos livros!


Nos EUA, existe agora um novo comércio ilegal. Os traficantes de livros! É isso mesmo, infelizmente e felizmente, ao mesmo tempo.
Tudo começou na cidade de Tucson, no estado do Arizona. Eis que o governo local, que mantém uma rígida lei anti-imigrantes, proibiu, retirando das escolas e circulação, diversos livros de origem latino-americana, em atitude amplamente discriminatória, além de remover os estudos Mexico-americanos dos programas escolares. As autoridades locais declararam que tais trabalhos promovem interesses antiamericanos – como obras que explanem sobre o racismo. Uma lista de livros
proibidos foi lançada, e entre eles estão: “Pedagogía del oprimido de Pablo Freire; El Zorro de Isabel Allende; Yo soy Joaquín/I am Joaquin de Rodolfo González; Bless Me Última de Rudolfo Anaya; La Llorona: Our Lady of Deformities de Ramón García son sólo algunos de los más de 80 títulos guardados en una bodega”.


Em resposta, a escritora Ana Castillo criou um blog para que qualquer autor latinoamericano difunda seus trabalhos, e os “librotraficantes” se certificaram de preservar a cultura e história latinas, através da criação de bibliotecas que divulguem as obras rechaçadas pelo governo de Tucson, porém a medida se espalhou para outras cidades do Arizona, que já contam com o trabalho dos librotraficantes ativistas. Em uma semana, foram distribuídos mais de mil livros!


Artigo original, em espanhol: La discriminación...



Aberinkula

Retirando as nuvens que pairavam sobre mim, me cobrindo o ceú.













Vanessa Dalla

domingo, 13 de maio de 2012

# 5

Então eu comecei a perceber que acordar é mais do que
simplesmente abrir os olhos.
É prova de amor.


Vanessa Dalla

Melancolia

Quarta feira. Esperando o fim de semana chegar, sem motivo aparente. Pois é tudo tão igual, sempre, sempre. Não há distinção entre domingo e segunda, entre terça e sexta. Não hás dia preferido, não há pior dia, pois todos são igualmente mórbidos, sem graça, sem cor, sem motivo. Que motivo há em ser um dia? Que motivo há em viver um dia? Se os dias se somam é apenas para aumentar minha angústia, para dar vozes às dores, velocidade às lágrimas. Se os dias se somam, para mim é apenas como ter algo a contar. E quando 1 mais 1 se torna quase insuportável, não há mais porquês. Agora é apenas esperar o "quase" morrer, um pouquinho antes de mim.


Vanessa Dalla

O Guerreiro

Ser assediado implica que se tenha posses pessoais que possam ser bloqueadas. Um guerreiro não tem nada a não ser sua impecabilidade, que não pode ser ameaçada.

Carlos Castaneda

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Crítica de quinta: o consumo de bebês pela china - ou faz de conta que somos mais inocentes


Nessa semana a Coréia do Sul apreendeu milhares de cápsulas contrabandeadas da China. No rótulo, se intitulavam remédios para qualquer tipo de doença, tipo MILAGRE. O conteúdo? Carne humana, mais especificamente de bebês e fetos, manipulados e esquartejados para a produção maciça das tais capsulazinhas. ISSO te apavora? Ok, eu também não achei bonito nem dei risada (vale lembrar que tais carnes provinham de abortos – controle de natalidade chinês - e bebês já mortos). Mas me impressiona e me choca muito mais a imensa indústria de carnificina, que produz milhões e milhões de bezerros para consumo humano de luxo. O fato é que esses bezerros são mantidos em confinamento e na ausência de luz, desmamados no primeiro dia, não podem mover um músculo, e morrem em poucos dias, tento a vida abortada por um motivo tão chulo quanto o fato acima, para você ter uma carne macia, fofa, sangrenta, no prato.

 Essa indústria existe para dar uma “utilidade” aos inúmeros bezerros provenientes da indústria leiteira – as vacas, para dar leite, precisam constantemente estar grávidas, mas os bezerros são separados logo após o nascimento. Assim se produz a carne de vitela, ou baby beef, como alguns chamam para dar um charme a mais. Na verdade, não sei como anda a popularidade da tal carne. Talvez os bebês humanos estejam mais em alta pelo oriente. Mas num país onde tudo se aproveita, das baratas aos cães, para uma população crescente e sedenta, por que não achariam um fim “útil” aos bebês? Grilo, cachorro, vaca, criança. Tu defendes: consumir TUDO ou não consumir NENHUM?

Porque somos todos, afinal, seres VIVOS.


Vanessa Dalla

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nárnia e o que Mini-Jardins têm a ver com ela.

Nossa, que muito lindo!
Vou encher meu quarto dessas plantinhas mimosas!











Isso me lembrou que a origem de todo o conto Narniano veio de uma visão de Lewis quando ainda criança, enquanto ele observava um mini-jardim em uma tampinha de pote. Ele imaginou e se perguntou quanta vida e universo poderiam existir ali dentro...
não é que saiu bastante coisa dali??



A gente imagina que esses caras eram gênios de outro mundo, coisa assim. Mas nada disso, eram pessoas com vidas e atividades comuns, mas sabiam por o cérebro para trabalhar!


terça-feira, 8 de maio de 2012

Leva tudo!

Que livros são caros, infelizmente, todo mundo sabe. Mas garimpando por aí se acha coisa barata. Em Porto Alegre, passei na frente de um balaião cheeeio de livros, numa loja de bazar do centro, com a placa "R$ 2,00". Epa, peraí. Pra quem já tá no vermelho mesmo, 2 pilas não vão fazer a diferença. Vasculhei, mas sou muito chata para escolher qualquer coisa. No fim, levei esses dois:


O primeiro, por causa do autor. Achei que fosse o John Reed que eu gosto, mas nem era. Cafusão.
O segundo, me interessei pelo tema, "atentados e massacres", rsrsrs.

A Vez do Bola-de-Neve eu já li e tem a RESENHA, e um TRECHO também.
O outro, espera sua vez!


domingo, 6 de maio de 2012

Adeus, entulhos!

Calma, não tô jogando minhas preciosidades fora, não! É que estou fazendo A reforma no quarto, e sabem, manter os livros assim empilhadinhos não faz bem pra eles não pra minha neurose de arrumação. Então finalmente comprei uma estante lindona! Mas ela só chega daqui umas 2 semanas, enquanto isso eu fico nervosa mesmo.


...e posso aproveitar para pensar em como organizar os livros. Ordem alfabética, estilo literário, "idade"...na ordem que eu pegar...enfim. De qualquer forma eu acabo decorando onde está cada um.

Sugestões??

Os Filhos de Húrin, Resenha (agora é a minha)


Os Filhos de Húrin trata do desfecho histórico e trágico da família de Húrin, especialmente através dos passos errantes do seu filho, Túrin Turambar, que quer dizer “Mestre do Destino”. Bom, o épico não foi finalizado por Tolkien, que deixou alguns trechos inacabados e pontos em discordância. Mas a história é uma das mais completas e desenvolvida d’O livro dos contos perdidos. Sobre a história, Tolkien afirmava que era um conto compreensível por si só, mesmo com um conhecimento vago do plano de fundo, mas não isentava a importância que esses contos “isolados” mantinham com a história geral, sendo eles “elos fundamentais do ciclo”. O mestre responsável pela bela organização do vasto material espalhado por aí em folhas soltas e notas de rodapés foi seu filho Christopher Tolkien. Hoje ele já tem 88 anos. A história de Túrin já existia em 1919, se não antes, segundo ele. Só cito os números, porque eles me impressionam. Já faz tanto tempo, e as histórias não perdem sua magia, magnificência NEM soberania.

Por tudo isso, superindico a leitura para os não fãs de Tolkien (ahn, isso é possível?). Não é preciso entender a história do Anel (ele ainda não existia, keep calm) ou visualizar a Terra Média inteira.

OK. A leitura é linda, bela, mágica, me surpreendeu do inicio ao fim, mesmo já conhecendo a história. Húrin e sua família são amaldiçoados por Morgoth, o então Senhor do Escuro (muito mais fodão que o Sauron, seu vassalo). A partir de então, todos os passos de Túrin são cobertos por escuridão e desgraça. Comete atos heroicos , e vira sim, uma espécie de herói, temido e amado. Mas tudo o que ele faz tem a mão do mal, e por isso ele traz infelicidade e tragédias a todos que o rodeiam.

A narrativa é ora melancólica, ora excitante e exaltante. É um pequeno épico, uma pequena história repleta de belas palavras, elfos sábios, homens cruéis e anões duvidosos, onde a força do mal predomina e a Escuridão ameaça pairar sobre o mundo definitivamente. É uma história sombria, definitivamente a mais sombria de Tolkien. Arrepia a alma e meu coração bate mais forte. Tenho dito.

“- Cabed-em-Aras, Cabed Naeramarth! – exclamou. – Não poluirei tuas águas onde Níniel foi lavada. Pois todos os meus atos foram maus, e o último foi o pior.
Então puxou da espada e disse: - Salve, Gurthang, ferro da morte, somente tu me restas agora! Mas que senhor ou lealdade conheces a não ser a mão que te empunha? Não recuas diante de sangue nenhum. Tomarás Túrin Turambar?” 



E como eu não gosto de fazer resenhas estilo “resumo”, contando toda a história, podem conhecer mais da história AQUI, nessa outra bela resenha.


Não ficou com vontade??

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Em O Grande Minerador


E a convivência com o velho era rica de emoção e poesia. Iria escrever um livro bem bonito sim, para lapidar um pouco essa bruta pedra que separa os homens de sua própria magia.

PedroMarodin

Trechinho do livro “O Grande Minerador”, de Pedro Marodin. É cheio de bonitos dizeres e aprendizados.

Ponderação


Ouça com cuidado, e pondere;
Fale o necessário, e pondere;
Veja o belo, e pondere;
Não esqueça que o poder se faz com ações. Mas surge na cabeça primeiro.
VanessaDalla



Editora Hedra


Eaí! Já conheceram a Editora Hedra?

Pois bem, to adorando os livros e as publicações deles, por:

  1) Têm títulos inesperados, e não raro, difíceis de encontrar. Nota para a coleção dos textos de caráter político, em especial Anarquista. Difícil alguém se dedicar ao tema atualmente, com qualidade e investimento.
   2)   As traduções, até onde li, são ótimas. Ok, não as obras em inglês e depois em português para comparar, mas dá pra ver quando alguma coisa é de qualidade e a pessoa entende do assunto.
  3)   Introduções de quem manja do assunto (por ex, um tradutor só trabalha nas várias obras dum mesmo     escritor, isso dá sustância).
   4)      Coleção de apêndices interessantes MESMO e que fazem acrescentar à leitura.
   5)      Edições bonitas e atrativas.
   6)      Utilização de softwares livres e Linux. Acho uma iniciativa bacana, inclusive a exposição do fato.
   7)      Parece que buscam um bom aproveitamento do tamanho da página. Economia de papel ;)
   8)      Coleção crescente.
   9)      Preços não exorbitantes, para a Coleção de Bolso e dentro do padrão que temos hoje no Brasil.


Bom, isso tudo para mim é motivo suficiente para pelo menos dar uma espiada!!
-> HEDRA

A minha coleção da editora por enquanto é esta:

H. P. Lovecraft e Bakunin ;)
H. P. Lovecraft e Bakunin ;)

Na ostra do Universo
a Pérola da
Lua Cheia

PedroMarodin

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dylan, yo quiero

Hoje estou feliz e cansada, e está tudo bem e andando, apesar de bem atrapalhada. Mas não tem como não ficar triste e decepcionada sabendo que esse cara tá ALI e tu nem foi. POOOOXA.




So now as I'm leavin' 
I'm weary as Hell  
The confusion I'm feelin' 
ain't no tongue can tell 
The words fill my head and 
fall to the floor 
If God's on our side he'll 
stop the next war
- With God on our Side 

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ramatís

"O vosso sistema de nutrição é um desvio psíquico, uma perversão do gosto e do olfato; aproximai-vos consideravelmente do bruto, nessa atitude de sugar tutanos de ossos e de ingerirdes vísceras na feição de saborosas iguarias. Estamos certos de que o Comando Sideral está empregando todos os seus esforços a fim de que o terrícola se afaste, pouco a pouco, da repugnante preferência zoofágica."




"Pensamos que o senso estético da Divindade há de sempe preferir a cabana pobre, que abriga o animal amigo, ao matadouro rico que mata sob avançado cientificismo da indústria fúnebre. As regiões celestiais [...] também serão alcançadas, um dia, mesmo por aqueles que constroem os tétricos frigoríficos e os matadouros de equipo avançado, mas que não se livrarão de retornar à Terra, para cumprir em si mesmos o resgate das torpezas e das perturbações infligidas ao ciclo evolutivo dos aniimais."

terça-feira, 17 de abril de 2012

Passa Tempo

Eu pareço tão ocupada. Mas não estou.

Estou só admirando a beleza do tempo.



Vanessa dalla


FANTASPOA

De 4 a 20 de maio, acontece em Porto Alegre a oitava edição do Fantaspoa, o Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre. Foi o primeiro evento do tipo no Brasil, dedicado exclusivamente ao gênero fantástico (ficção científica, fantasia e horror).
A cada ano o público e a estima do Festival crescem, que conta com a participação de muitos cineastas, roteiristas e diretores reconhecidos no ramo.

Aprecie, pela bagatela de 5 pilas a seção.

Conheça tudo no site, programação, sinopses, etc:



Frases Tolkenianas

Sábios conselhos do Professor. De longe, meu preferido é o terceiro, desde a primeira vez que o li, me encantei. É profundo se tu pensar...


Não é nossa função controlar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que pudermos para socorrer os tempos em que estamos inseridos, erradicando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que viverem depois tenham terra limpa para cultivar. Que tempo encontrarão não é nossa função determinar. 

Aquele que quebra uma coisa para descobrir o que ela é deixou o caminho da sabedoria.

Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte. Pois mesmo os muitos sábios não conseguem ver os dois lados.

Momento narcisista, meu próprio pequeno Tolkien.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Maravilhoso!

Não tem como não se impressionar com esse mundo e natureza! Excepcionais!
Peixe descoberto com cabeça transparente e olhos tubulares...Artigo sobre a descoberta de 2009, aqui!


domingo, 8 de abril de 2012

A Guerra dos Tronos, A resenha.

Buenas. Vai ser difícil de falar (ou escrever...) sobre este livro. Primeiro, ainda estou no segundo da série de 4 (aqui no Brasil...lá fora já são 5), e depois, por que ele é um tanto complexo, mesmo. Mas a gente tenta! Como não é do meu feitio, essa resenha não do tipo "resumo" (aliás, geralmente odeio isso). Gosto mais de falar das impressões e considerações que considero relevantes.

Só pelo Prólogo de A Guerra dos Tronos, já dá pra sentir um pouco como vamos ficar sem fôlego através do poderoso épico de George R. R. Martin. Mas o começo é meio decepcionante, parece que ele não está falando nada com nada, e a série interminável de apresentações de novos nomes, características, famílias e personalidades é cansativa. Mas se aprende a desapegar, porque depois tudo vai fazendo sentido e vamos nos acostumando. Digo isso como um incentivo, porque minha mãe parou nos primeiros capítulos e eu juro que tive essa vontade. Mas fui adiante, e foi recompensador.

O que toma parte nesse livro é a Guerra pelo Trono de Ferro, que governa os Sete Reinos de Westeros. Uma teia de intrigas e imprevistos entre famílias tradicionais é o miolo de tudo o que se passa.

Cada capítulo cria um novo enredo e um novo mistério. De fato, mistérios é o que não falta na novela épica de Martin. O fundamental do livro são as intrigas e oposições, os conflitos sobre honra e dever. A ambição também ganha um espaço considerável nas preocupações pessoais. E cada personagem vai se moldando, de forma profunda, sempre seguindo algum desses princípios morais (ou não tão cheios de moral assim). Cada pessoa na obra tem uma particularidade, e histórias profundas. Algumas vão se mostrando mais exemplares, e outras têm um caráter duvidoso, sempre escondido atrás de narcisismos notáveis. Muitas vezes, vemos a evolução da personagem, nos envolvendo e cativando. É difícil não se apegar a alguns papéis, e ficarmos emocionados com o seu desenvolvimento.
Daenarys

Martin tem o dom de fazer de que de cada diálogo sobre uma dúvida ou uma faísca que vai gerar o incêndio, e surpresas são comuns, embora os personagens mantenham-se sempre no mesmo caráter pré-moldado (até agora). É honra até a morte, e que a morte nos tire a honra. Com duas ou três exceções, personagens muito bem elaboradas e intrigantes, geralmente sabemos o que podemos esperar das outras.

Passagens assustadoras e cheias de suspense também enchem algumas páginas com um certo louvor. Mas, incomum para mim até agora, nesse tipo de literatura, eram as infinitas citações às putas e bordéis. Nada contra, um pouco de sujeira para um mundo paralelo (posso chamar assim? Afinal, não é a Terra Média...) que mais remete à Idade Média (do mundo ordinário).

Críticas também às narrações de guerra. Na verdade, elas quase nem existem. A guerra só começa, e depois termina (até agora foi assim, praticamente).

John, Bran e Robb Stark

Maaaas embora eu tenha achado alguns pontos fracos, de longe passa a ser uma obra ruim. É complexa, dentro da sua capacidade, e bem escrita, cheia de pegadinhas e humores, e recomendo a qualquer bom leitor com paciência. De fato, a literatura fantástica ficou renovadíssima e com um novo fôlego!

A HBO criou a série homônima, muito aclamada e de produção excelente, já estou viciada também. Rsrsr, mas algumas passagens deixam a desejar, e não, não é tão fiel ao livro assim. As imagens são retiradas da série.

O Princípio do Estado, pequena nota

"O Princípio do Estado e outros ensaios" é uma notável obra Anarquista, onde Bakunin defende a sociedade livre de Estado, sendo este o gerador de toda miséria e opressão sobre o povo. Ataca igualmente a Religião.  Consta de ensaio homônimo de março de 1871, mais “A Comuna de Paris e a noção de Estado”, de junho do mesmo ano, e mais três conferências feitas aos operários franceses, em maio de mil oitocentos e setenta e um, período este de “grande efervescência revolucionária”.

De inteligência sem tamanho, lendo uma vez, começa-se a entender (e pensar mais, também...).

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin é considerado o fundador do sindicalismo revolucionário e o expoente máximo do que passou a se chamar anarquismo, a partir de sua expulsão da Internacional em 1872.
 
Editora hedra, aêê!
138 páginas.














Próximo a considerar:


domingo, 1 de abril de 2012

Os Filhos de Húrin - a melhor resenha

Ia resenhar "Os Filhos de Húrin", mas não posso deixar de postar esse achado. É uma resenha completa e sentimentalista, capaz de evocar sensações provocadas pelo próprio livro. É uma resenha da imprensa internacional da época da publicação do livro, da revista eletrônica Salon.com, e eu achei na Valinor.
É bem longa, mas não é cansativa, e é perfeita e condizente, misturando fatos históricos da vida de Tolkien.



Senhor das ruínas

Christopher, filho de J.R.R. Tolkien,
passou mais de 30 anos montando fragmentos que seu pai deixou para
trás. Agora, os leitores podem descobrir o que aconteceu 6.000 anos
antes de Bilbo Bolseiro encontrar o Um Anel.

por Andrew o'Hehir



Depois de alguns capítulos da narrativa de "The Children of Húrin", o
livro mais ou menos novo mais ou menos escrito por J.R.R. Tolkien, um
carpinteiro aleijado chamado Sador contempla seu trabalho abandonado
com emoções misturadas. Sador é um servo fiel de Húrin, senhor da Casa
de Hador na terra de Dor-lómin, e estava esculpindo uma grande cadeira
para seu mestre. Mas, meses antes, Húrin cavalgou para uma batalha que
terminou em derrota terrível. Ele não retornou, e suas terras foram
conquistadas e pilhadas por forasteiros. Assim, Sador deixou de
trabalhar na cadeira, e ela "foi enfiada num canto, incompleta".

Enquanto tenta decidir se deve desmontar a cadeira e usá-la como lenha
no inverno, Sador conversa com Túrin, o filho pequeno de Húrin que logo
será mandado para o exílio e tornar-se-á o herói andante e amaldiçoado
dessa história sombria, sangrenta e apaixonante. "Perdi meu tempo", diz
Sador sobre sua longa labuta, "embora as horas parecessem agradáveis.
Mas todas as coisas desse tipo são de vida curta; e a alegria da
criação é seu único fim, imagino."

É impossível não ouvir John Ronald Reuel Tolkien repreendendo ou
consolando a si mesmo com essas palavras. Ao morrer, em 1973, Tolkien
deixou para trás as ruínas impublicáveis de um imenso conjunto de
literatura lendária, englobando uma história imaginária inteira do
mundo, da criação até épocas quase modernas. Os grandes episódios
heróicos dessa história – os elementos que ele considerava os mais
importantes – foram escritos apenas de forma sumária ou em fragmentos,
apesar de numerosas tentativas de transformá-los em prosa narrativa ou
poesia épica. Ele teve um sucesso acadêmico significativo como
lingüista e filólogo em Oxford, mas a maior parte de sua carreira
literária foi gasta desperdiçando energia em projetos que Tolkien nunca
completava. Ele era atormentado por bloqueios criativos, humores
sombrios e numerosas mudanças de rumo. Enfiou muitas cadeiras
incompletas num canto.

Tolkien ainda poderia ser recordado dessa maneira por algum grupelho
minúsculo de admiradores, se não fosse pela única parte de sua história
- na mente dele algo relativamente sem importância, tirado dos estágios
posteriores de seu "legendarium", mas que tinha um foco unicamente
íntimo e pessoal – que ele transformou numa narrativa de larga escala.
Tolkien tinha 62 anos quando publicou o primeiro volume de "O Senhor
dos Anéis", sua obra-prima de fantasia responsável por definir esse
gênero, e mais de 70 quando a popularidade explosiva do livro o tornou
rico e famoso. Não há como negar que a história do hobbit Frodo e de
seu pequeno grupo de companheiros, que encaram uma perigosa jornada com
o Um Anel de Sauron, o Senhor do Escuro, está entre os livros mais
queridos já publicados. Inevitavelmente, para a maioria de seus
leitores o enorme conjunto de tradições por trás do livro não passa de
um pano de fundo curioso, cheio de genealogias incompreensíveis,
línguas inventadas e nomes impronunciáveis.

Contudo, como bem sabe o universo de fãs viciados de Tolkien – um
universo que nem é tão pequeno, aliás – o autor tinha imaginado e
examinado cada detalhe de sua criação, de forma tão detalhada quanto
havia feito Ilúvatar, o equivalente de Javé que criou a Terra e deu
vida a Elfos e Homens. (A linguagem de Tolkien, assim como sua visão de
mundo, nunca é neutra em termos de gênero.) Nenhum autor de fantasia ou
de qualquer outro gênero jamais construiu um mundo com tanta densidade
histórica e lingüística; chega a parecer que esse imenso trabalho de
arquiteto exauriu Tolkien e, com exceção da narrativa de "O Senhor dos
Anéis", não lhe tenha sobrado energia para contar suas histórias.


Por mais de 30 anos, Christopher Tolkien, que trabalha como
testamenteiro literário de seu pai, tem revelado fragmentos e pedaços
do baú tolkieniano, quase como um ferreiro anão tentando reforjar uma
grande espada élfica a partir de agulhas e lascas espalhadas. Embora "O
Silmarillion" tenha sido um best-seller quando foi publicado em 1977,
por exemplo, só os fãs mais durões de Tolkien atravessaram seus
sumários secos e empolados de grandes feitos do passado distante. O
próprio Christopher Tolkien escreveu, com seu circunlóquio
característico, que "o estilo e forma de compêndio ou epítome de 'O
Silmarillion', com sua sugestão de eras de poesia e 'tradição' por trás
deles, evoca fortemente um senso de 'histórias não-contadas', mesmo
quando elas são contadas. A 'distância' nunca se perde. Não há urgência
narrativa, a pressão e o medo do evento imediato e desconhecido. Não
vemos as Silmarils do mesmo jeito que vemos o Anel."


Christopher Tolkien tem hoje 81 anos, a mesma idade que o pai dele
quando morreu, e pode-se imaginar que "The Children of Húrin" é sua
última e melhor tentativa de contar uma das grandes "histórias
não-contadas" de Tolkien em algo próximo a uma forma completa. Ele
trabalhou de forma contínua e árdua para reunir pedaços de manuscritos
que aparentemente recuam até 1918, quando Tolkien concebeu
originalmente a história, e que continuam quase até o fim da vida dele.
A história de Húrin de Dor-lómin, de seu filho Túrin e da luta fadada
ao fracasso dos dois contra Morgoth (o "Grande Inimigo" de Elfos e
Homens, senhor e mestre de Sauron) foi contada duas vezes antes,
primeiro em "O Silmarillion" e novamente no volume "Contos Inacabados"
(1980), editado por Christopher. Ela emerge aqui pela primeira vez como
um relato de aventura, com toda a sua urgência narrativa, medo do
desconhecido e personagens reconhecivelmente humanos.


"The Children of Húrin" vai empolgar alguns leitores e deixar outros
desanimados, mas vai surpreender quase todo mundo. Se você está
procurando a acessibilidade, o lado lírico e acima de tudo o otimismo
de "O Senhor dos Anéis", bom, é melhor ir lê-lo de novo. Não há hobbits
nem Tom Bombadil, nada de estalagens aconchegantes na beira da estrada
e muito pouca alegria à beira do fogo de qualquer tipo. Esta é uma
história cujo herói é culpado de traição e assassinato múltiplo, uma
história de estupro e pilhagem e incesto e ganância e gloriosas
batalhas que nunca deveriam ter sido travadas.


Se "O Senhor dos Anéis"
é uma história na qual o bem vence o mal, esta aqui caminha
inexoravelmente para o outro lado.
Embora os leitores casuais de "O Senhor dos Anéis" possam se assustar,
"The Children of Húrin" não exige nerdice nível Silmarillion. Qualquer
fã médio de Tolkien com apetite pelos cantos mais escuros e estranhos
de seu reino vai se deixar prender rapidamente pela saga sangrenta de
Húrin, que desafia o temido Morgoth e é torturado sem piedade, e Túrin,
o guerreiro lendário cujos grandes feitos arrastam tudo e todos que ele
ama para o desastre completo. Ou, pelo menos, vai se deixar prender se
conseguir atravessar as primeiras páginas.


Inicialmente, "The Children of Húrin" tem aquele estilo empolado de
Tolkien em seus momentos mais emperrados. Esta é a terceira sentença do
capítulo 1: "Sua filha Glóredhel desposou Haldir, filho de Halmir,
senhor dos homens de Brethil; e na mesma festa seu filho Galdor, o Alto
desposou Hareth, a filha de Halmir". (Aliás, nenhuma das pessoas nessa
sentença aparece de novo.) Eu ainda precisei consultar os mapas,
índices e apêndices completos e muito úteis de Christopher Tolkien de
vez em quando para recordar a nomenclatura geográfica e genealógica – e
voltei a "O Silmarillion" algumas vezes para entender o contexto
histórico – mas me incomodei cada vez menos com isso conforme as horas
passavam e a luta terrível de Túrin contra o mal interno e externo
ficava cada vez mais horrenda.


As aventuras de Túrin se passam na "Primeira Era" da Terra-média de
Tolkien, uns 6.000 anos antes de Bilbo Bolseiro achar o Um Anel, de
forma que, fora algumas referências a Sauron, o lugar-tenente de
Morgoth, quase não há intersecção entre essa história e "O Senhor dos
Anéis". (Eu disse quase; preste atenção!) Túrin nasce num mundo em
guerra, onde a antiga aliança de Elfos e Homens está perdendo terreno
gradualmente numa longa luta com Morgoth, o qual lançou de sua
fortaleza em Angband o equivalente do mundo antigo das armas de
destruição em massa.


Ele conjurou ou criou ou perverteu uma raça de
demônios letais chamados Balrogs (um dos quais aparece em "A Sociedade
do Anel") e revelou um grande dragão chamado Glaurung, cujas armas
incluem tanto o fogo quanto o diálogo sarcástico. (Ele é provavelmente
o pai ou o avô de Smaug, que Bilbo encontra em "O Hobbit".) Logo depois
que as forças de Húrin e os outros grandes exércitos de Elfos e Homens
são estraçalhadas por Morgoth na Nirnaeth Arnoediad ("a Batalha das
Lágrimas Incontáveis"), o mundo ocidental é engolfado pelo caos. (Ainda
estamos muito no começo do livro, e eu não citei nenhum grande spoiler.


Mas saia agora se não quiser mais detalhes da trama.) Uns poucos reinos
élficos ocultos continuam protegidos, incluindo a fortaleza de
Nargothrond, a cidade secreta de Gondolin e a floresta de Doriath – uma
espécie de precursora de Lothlórien em "O Senhor dos Anéis" -, mas os
reinos dos Homens são tomados pelas forças de Morgoth.
Mandado para longe de sua mãe e de sua irmã ainda não-nascida quando
garoto, Túrin se torna o filho adotivo de Thingol, o rei élfico de
Doriath, e torna-se um guerreiro feroz quando adulto.


Mas elfos
imortais e homens mortais não se misturam com facilidade, e nem
Thingol sabe que Morgoth, que está mantendo aprisionado o desafiador
Húrin, colocou a família inteira do herói sob uma maldição horrenda.
Morgoth, aliás, não é só aquele típico demônio de romance de fantasia -
na origem, ele era o maior dos Ainur, os espíritos divinos que cantaram
com Ilúvatar e criaram o mundo. "A sombra do meu propósito jaz sobre
Arda [a Terra]", diz Morgoth, "e tudo o que está nela se inclina lenta
e certamente à minha vontade."


Ao contrário de Sauron em "O Senhor dos Anéis", o Morgoth de "The
Children of Húrin" aparece como um ser físico malévolo mas sofisticado,
tal como os deuses da mitologia grega e nórdica aparecem para os seres
humanos. De fato, toda essa história apresenta uma visão sombria e
visceral da vida, muito mais próxima do fatalismo dos antigos mitos
europeus do que do bom-senso rural e inglês dos hobbits, que funciona
como base moral de "O Senhor dos Anéis".


Parte disso vem do fato de que "The Children of Húrin" é principalmente
uma história sobre seres humanos, sempre as figuras moralmente mais
ambíguas do universo de Tolkien. Embora seja claramente o herói da
história e um grande guerreiro de sua época, Túrin não pode ser
descrito adequadamente como bom ou mal. Como Édipo ou Siegfried ou o
herói do épico finlandês "Kalevala" (um dos modelos de Tolkien), ele é
definido pela nuvem escura do destino que jaz sobre ele. É amaldiçoado
por um poder grande demais para ser derrotado ou eludido, mas seu
próprio temperamento só torna as coisas piores, como uma mosca que se
sacode numa teia de aranha.


Ele é arrogante, cabeça-dura, de
temperamento explosivo e inclinado à violência, e os que o amam e se
tornam seus amigos são sugados por seu vórtex sombrio.
Túrin torna-se um famoso amigo-dos-elfos e matador dos Orcs de Morgoth;
no fim do livro, realiza um ato de heroísmo lendário, o tipo de coisa
sobre a qual as pessoas ainda estavam cantando baladas na época de
Frodo. Mas, ao longo do caminho, ele também se torna um fora-da-lei que
tolera banditismo e brutalidade entre seus homens, um conselheiro
prestigioso cujas palavras só levam à perdição, um homem que mata um de
seus melhores amigos e depois rouba o amor de seu outro amigo. (É claro
que ela acaba se revelando exatamente a mulher errada para ele,
responsável por selar seu destino.) Não fica muito claro se Morgoth
realmente precisa amaldiçoar esse sujeito; ele faz um serviço muito bom
ao amaldiçoar a si mesmo a cada passo.


Terminei "The Children of Húrin" com um apreço renovado pelo fato de
que a narrativa de Tolkien é muito mais ambígua em tom do que
normalmente se nota. Como já se disse várias vezes, ele era um católico
devoto que tentou, com sucesso imperfeito, harmonizar a violenta
cosmologia pagã por trás de seu universo imaginativo com a crença numa
salvação cristã. A salvação parece muito distante em "The Children of
Húrin". O que fica em primeiro plano é aquela sensação tolkieniana
persistente de que o bem e o mal estão travando uma luta maniqueísta
não-resolvida com fronteiras amorfas, e que o mundo é um lugar de
tristeza e perda, cujos habitantes humanos freqüentemente são os
agentes de sua própria destruição.
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