sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Naufrágios & Comentários: Resenha


        A história colonial da América é marcada por sangue, por conquistadores traiçoeiros, ameaçadores. Mas houve um singular homem que tentou a conquista por palavras gentis, a obediência pelo respeito e não pelo medo. Foi o aventureiro Cabeza de Vaca (1492 - ?), único entre os conquistadores que lutou a favor dos povos indígenas. Neste livro, temos a narração de suas aventuras América adentro, revelando os horrores infligidos aos índios, e fato do qual hoje parecemos orgulhosos ao exaltarmos em nossa completa cegueira nossas “terras conquistadas”. Com um realismo puro e uma linguagem típica da época, mergulhamos nas selvas e profundezas dos conflitos entre “civilização” e “selvagens”. Cabeza de Vaca e alguns fiéis companheiros fizeram fama entre os povos indígenas, pois os tratavam com bondade. Caminharam durante anos e chegaram a ser tidos como deuses e milagrosos, vagaram nus e famintos por meses, mas também foram presos e viveram sob clausura com uma tribo por anos. 

Edição da L&PM pocket


Mas é com tristeza com lemos a narração de conteúdo histórico, cheia de riquezas, de culturas que jamais poderemos presenciar; cheia de vida, e, ao mesmo tempo, um registro vergonhoso de nossa relação com os índios. É um preço que a humanidade vai carregar, é o sangue que jamais vai deixar de fluir nos rios. De Vaca tentava impedir esse massacre, mas ele mesmo acabou massacrado, no que era na realidade sua busca por iluminação, no doloroso abandono do pensamento de que o homem adquire força através do punhal e da adaga... Foi a prova de que um homem é capaz de mudar seu coração ao enfrentar a verdade, e passar a defendê-la como a própria vida, pois a vida do homem nada mais é do que a própria verdade.


“Para se entender o que significa não ter nada, é preciso não ter nada.”
(Cabeza de Vaca)

domingo, 14 de agosto de 2011

A obscuridade de Caravaggio

         Eu também gosto desta arte, a pintura, embora não conheça quase nada. Um carinha que adoro é Michelangelo Merisi de Caravaggio, ou simplismente Caravaggio. Conheci sua história através do livro A Corrida para o Abismo, que é fantástico e gigante. É um misto da vida do pintor, da qual muito pouco se sabe, com romance. O livro mostra todo processo da pintura de suas obras, sempre com contexto religioso (a Igreja só permitia esse tipo de pintura, na época, por volta do ano de 1600), mas Caravaggio chocou ao retratar aspectos sombrios, muitos temas de morte, cenas agressivas, e foi inovador neste tipo de pintura, com cores mais escurecidas e muitas sombras, e um realismo "surreal" nas expressões de seus personagens. Chegou a ser preso e ter a cabeça à prêmio por conta de seu estilo e suas críticas à Igreja, que eram postas através dos elementos religiosos (frutas, folhas de hera, vinho, etc) de forma transviada, e seu comportamento inaceitável perante autoridades e a sociedade (era homossexual e também vivia com prostitutas, cometeu assassinatos...). Teve que afinal fugir de Roma, até o seu final avassalador e chocante. Como foi dito, sua vida pessoal é um mistério, mas o que se sabe com certeza é que foi muito polêmico, muito excêntrico, e este livro em questão, de Dominique Fernandez, sabe retratar isso com maestria.
             Assim, lhes deixo algumas obras de Caravaggio:








Imagens do Google.

Cada pintura tem um contexto e uma história, geralmente bíblicos. Isso pode ser achado facilmente.  Hoje, elas encontram-se principalmente na Itália, seu país de origem. 


Livro que conta a história romanceada de Caravaggio. Eu tenho ele, mas nunca fiz uma resenha pra valer, pq acho meio complexo (e já faz tempo que li). É sensacional, mas uma leitura meio pesada.

Tirinhas Literárias 2


(tem MUITA moral, ainda mais neste Brasil hipócrita)



=]

Música também, e é Renato Godá.


sábado, 13 de agosto de 2011


“Aquí está Francisco Villa
com sus jefes y oficiales,
Es el que viene a ensillar
A las mulas federales.

Ora es cuando, colorados,
Alistense a la pelea.
Porque Villa y sus soldados,
Les quitarán la zalea!

Yá llego su amansador,
Pancho Villa el guerrillero,
Pa' sacarlos de Torreón
Y quitarles hasta el cuero!

Mulheres e até crianças aderiram à revolução mexicana.
Los ricos com su dinero
Recibieron una buena
Con los soldados de Urbina
Y los de Maclovio Herrera

Vuela, vuela, palomita,
Vuela em todas las praderas,
Y di que Villa ha venido
A hacerles echar carreras.

La Justicia vencerá.
Se arruinará la ambición,
A castigar a toditos,
Pancho Villa entró a Torreón.

Vuela, vuela, águila real,
Lleva a Villa estos laureles,
que ha venido a derrotar
a Bravo y sus coroneles.

Ora, hijos del Mosquito,
Que Villa tomó Torreón,
Pa' quitarles lo maldito
A tanto mugre pelón!

Viva Villa y sus soldados!
Viva Herrera com su gente!
Ya han visto, gentes malvadas,
Lo que pueden los valientes.

Ya com ésta me despido:
Por la Rosa de Castilla,
aquí termina el corrido
Del General Pancho Villa!”


Pancho Villa no cavalo


Poema dos camponeses, em improvisação numa noite de trégua, registrado por John Reed. 


  • Neste link [Mexican corridos], tem um pouco mais da história da revolução mexicana de 1910, e diversos corridos, como eram chamados estes poemas.

México Rebelde - os camponeses pegam em armas


         A situação mexicana era de caos e desordem. Generais confiscavam as terras e as administravam de seus próprios modos. Pobreza. Camponeses sem terras. Revolucionários, e entre eles, Pancho Villa.
         A Revolução mexicana de 1910 estava a toda quando John Reed, jornalista e revolucionário americano, foi enviado por um influente jornal para fazer a cobertura dos acontecimentos históricos.
John então convive com os mexicanos durante todo o desenrolar da revolução, e desnuda seus anseios por um país mais justo. Retrata a pobreza daqueles camponeses, que como uma última esperança, agarram-se na ideia da revolução e entregam seu sangue e vida por ela, em atos de coragem e amor aos companheiros, atirando-se em batalhas sanguentas e brutas como a ultima alternativa para uma vida mais digna.

Uma edição meio velhinha...
         Entre esses revolucionários, destaca-se a figura de Pancho Villa. Líder amado, outras vezes temido, mas fundamental para o sucesso dos camponeses. Ainda hoje Pancho é lembrado por suas táticas irreverentes de ataque, que teve de inventar pois nunca teve conhecimento de estratégia militar, e as abominava e desdenhava. Foi o inventor das marchas relâmpago da cavalaria e do ataque noturno no México. Atacava de forma sem precedente no país. Chegou a capturar um trem de carga dos federais, e mandava cartas ao general federal em nome do antigo comandante do trem, para não levantar suspeitas e atravessar uma grande distância com sua tropa. Chegou ao destino sem ser descoberto e fez um ataque totalmente inesperado. Em três anos, ele saiu da obscuridade e chegou à posição mais destacada do México. Mesmo assim, não tinha ganâncias para de tornar presidente, como muitos achariam normal. Dizia que um homem inculto não deve dirigir seu povo, que não saberia lidar com os homens do congresso, que não era educado e nem sabia ler. Reconhecia a falta de capacidade para o cargo: “sou um guerreiro, não um homem de Estado”. E era essa simplicidade e obstinação que fazem a figura de Pancho uma das mais notáveis que o México já lançou.


         Reed se dedica ao mostrar os caminhos políticos que o país estava levando. Faz isso com seriedade, e o mais importante, verdade. Mostra o ponto de vista da população, e luta com eles na frente de batalha, se entregando aos ideais dos mexicanos. Narra cenas de puro horror, homens despedaçados e ainda esperançosos. Tudo o que aquela gente queria era que a revolução vencesse, e era um sentimento profundo que se alastrou pelo país.  Em contrapartida, mostram-se um povo alegre nos momentos de “calmaria”, que enfrenta os problemas de frente, gente valorosa e de muito bom humor, que aproveitava as noites para fazer festa (e pelear, também) e apreciavam uma roda em volta da fogueira para cantar versos rimados de amor e revolução. O modo como eles acreditavam em Villa, no país e num futuro melhor às vezes emociona na narrativa de Reed, e a gente sente como se quisesse poder ter lutado também...

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A Revolução dos Bichos em animação

     Achei incrível essa animação (dos primórdios) do clássico de George Orwell, A Revolução dos Bichos. Gosto da obra por todo seu caráter, não a vejo como uma simples fábula, mas com um intenso contexto histórico e polítco (encontram-se materiais acerca fácil), e para mim, como vegetariana, vejo este ponto na obra também, o da libertação animal, embora este decaia, mais adiante, dando espaço às vulgaridades e falsidades do animal humano.









Bom proveito!

Da Utopia do tudo

A Utopia é como o horizonte numa caminhada de fim de tarde; sabemos que não podemos alcançá-lo, mas ele está lá, e é ele que nos faz avançar a cada dia.



Então não me digas que utopias não valem de nada.

Filme Vincent, de Tim Burton

Adoro Tim Burton, ele é genial. Este é o seu primeiro curta-metragem, em stop-motion, de 1982, com o personagem principal baseado no ator de terror Vincent Price, com insinuações de outra influência marcante para o cineasta, Edgar Allan Poe. O texto é muito poético e envolvente, ainda mais com a voz marcante do próprio Vincent Price, que narra esta história.

Deixo vocês então com Vincent:

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A Bruxa e a arte do Sonhar

Florinda, que vive no mundo de dom Juan Matus (o mesmo mestre de Carlos Castaneda), é enviada para a Venezuela, local de sua origem, numa missão de buscas por respostas e perguntas. Lá chegando, em eventos do acaso, Florinda acaba por encontrar dona Mercedes Peralta, conhecida curandeira e feiticeira de uma remota região do país. Mas não é por acado que Florinda torna-se sua aprendiz, impressionado-se ao perceber o despertar de seu caminho como espiritualista e médium, através do contato com os pacientes da curandeira, que lhe contam suas histórias fantásticas, fontes de mistérios, e do grande conhecimento do mundo espiritual que Mercedes possui. Através dos dias e meses, as histórias vão se entrelaçando e criando uma teia, e Mercedes percebe que não é ela quem vai fazer um ato por Florinda, mas sim a própria Florinda foi enviada até ela para lançar sua “sombra de feiticeira” sobre Mercedes e fazer sua “roda da oportunidade” mover-se.
Em “A Bruxa e a Arte do Sonhar”, somos levados para o íntimo das histórias dessas feiticeiras, admirando-nos com a beleza da cura espiritual e do poder, e de uma história de autodescoberta fascinante e inspiradora para qualquer pessoa com sensibilidade para acercar-se dos profundos conhecimentos proporcionados por essa agradável leitura.



Trechinho:

“ - Algumas crianças têm a força para desejar alguma coisa com muita paixão por um longo período de tempo. Candelária era uma criança assim. Ela nasceu desse jeito. Ela desejou que seu pai ficasse e desejou isto sem um pingo de dúvida. Dedicação, determinação, é isto que uma feiticeira chama de sombra.”


Autora: Florinda Donner-Grau
Editora: Nova Era
Páginas: 288
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