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segunda-feira, 30 de julho de 2012

Resenha - Nas Montanhas da Loucura


O cenário é o gelado Continente Antártico, fascinante e indescritível, que dominava muitos dos anseios de Lovecraft. Foi na desolação branca que o autor incorporou muitas de suas criaturas bizarras, dando origem à uma história completa, surpreendente e desesperadora.

Criaturas Ancestrais
As coisas ancestrais, os medonhos shoggoths, galerias subterrâneas de terror de éons passados, e abismos e platôs infernais dão corpo a primeira e única novela com mais de 100 páginas de H. P. Lovecraft, Nas Montanhas da Loucura.
Por ser mais extensa, Lovecraft abusa do seu metódico estilo de escrita, com incontáveis descrições e detalhes de todo o ambiente. É a obra de maior aproximação do gênero de ficção científica, mas sem deixar de lado o sobrenatural e as invocações extraordinárias.


A história é narrada em primeira pessoa, pelo ensandecido geólogo William Dyer, que descobre que uma nova expedição está se preparando para ir à Antártica; mediante o fato, resolve expor todos os terrores que lá passou, a fim de impedir essa nova busca, e manter a paz no mundo.

O ambiente é a Antártica, e Dyer relata os acontecimentos de sua expedição científica ao continente. Logo são feitas descobertas intrigantes e novas buscas revelam a possível existência de coisas alienígenas.
 Em busca de respostas ao achado e a um massacre ocorrido no acampamento, Dyer e seu colega Danforth exploram a área de avião – e decidem por fazer uma busca do outro lado das montanhas abissais, que forneciam a base para o acampamento. E é nessa exploração que as maiores descobertas são feitas.

Com muitos detalhes, acompanhamos a descoberta de uma cidade ancestral, de proporções magníficas, construções geométricas e incontáveis túneis e galerias subterrâneas. Por um bom tempo, Lovecraft se detém na descrição da horrenda cidade e as deduções dos exploradores – sobre os antigos moradores do local – que datavam de 500 mil anos atrás, no mínimo. São feitas algumas citações das ilustrações de Nikolai Rerikh e também sobre Poe. Por um certo período, a narrativa fica maçante, e com amplo uso de termos técnicos.
Pintura de Nikolai Rerikh

É depois da página 100 que a história toma um novo fôlego e se torna realmente curiosa e quase agonizante. O narrador e Danforth entram em confins da cidade, e encontram rastros de vida. De fato, encontram colônias de seres jamais vistos antes, porém, inofensivos. Mas encontram outras coisas mais indescritíveis e ameaçadoras também. Descobrem outras formas de vida – certamente, alguma Criatura Ancestral – na beira do Abismo do mundo e mais, se deparam com terrores vindos das profundezas dos cosmos, criações imundas que apenas uma mente doentia é capaz de lembrar ou imaginar. E no final, o horrendo grito inumano fica ecoando na nossa cabeça: “Tekeli-li! Tekeli-li!”.

É uma história fundamental que apresenta seus laços com as outras obras de Lovecraft, elucidando maiores detalhes sobre os Antigos e a criação dos Shoggoths, bem como uma teoria sobre a criação na vida da Terra, e em certo momento, questionamentos existencialistas.

E como toda boa obra da Editora Hedra, o livro ainda consta com um Apêndice, que apresenta uma carta do autor e a tradução de um soneto de Fungos de Yoggoth.



Nas Montanhas da Loucura
H. P. Lovecraft
Ed. hedra
130 páginas

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Resenha "comparativa": Senhor dos Anéis x Guerra dos Tronos


Bem, não é difícil de achar por aí, textos que tentam comparar, pôr em pé de igualdade ou menosprezar um a favor do outro, Senhor dos Anéis (SdA) e Guerra dos Tronos (GoT)1. Sou fã adicta de Tolkien, e leitora costumaz de fantasia, então também me encantei por GoT. Mas vou tentar não ser tendenciosa ao SdA e ser justa – ok, justiça pode ser um conceito individual, mas tentarei fazer nos meus termos.


- A se começar pelo uso da fantasia em si. Fantasia é aquela obra que faz uso de personagens ou seres de caráter mitológico, nascidos da imaginação do próprio autor ou tirados de lendas antigas. Pode ter importância secundária, ou tomar dimensões inconcebíveis. Basicamente, é isto que difere as duas obras.Tolkien usa a fantasia dentro da própria narrativa, o ambiente é totalmente fantástico e a sua presença é constante e imprescindível. Sem tal ambientação quase sem limites, muita coisa perderia o sentido e o contexto.  Já Martin, ao meu parecer, faz dela uso secundário. Os seres fantásticos e mitológicos estão ali, para dar o toque mágico, escuro ou tenebroso necessário para a impressão do leitor. Mas de modo algum eles são o motivo da obra – ou pense bem, os gramequins não fariam falta, e os Outros só servem, até agora, para dar medo e fazer parte de um desenrolar de trama.

- Outra característica importante é a avaliação das personagens, e vou me estender. Um livro só existe pq têm personagens, e personagens só existem porque têm um fim e um começo – e nesse meio tempo, uma evolução. E é a evolução que dá sentido pra tudo, não seria justo o Aragorn ser Rei sem ter lutado, ou a Daenarys ter os dragões sem ter sofrido. O final pode ser então a conquista do objetivo, ou obra da “justiça divina”, a redenção dos pecados ou a punição, a morte, enfim. E cada personagem tem seu meio de chegar até lá. Ambas estórias têm heróis e vilões. Mas Tolkien manipula (ou dá vida) as personagens de forma mais pueril e suave. Elas sofrem, e têm sentimentos humanos, mas geralmente é algo profundo, que faz tal pessoa se questionar, põe em dúvida a missão. Digamos que Tolkien dá mais heroísmo clássico (?) nos infortúnios dos coitados, bem como a recompensa é bela e grandiosa. Então, ao meu ver, as personagens se Tolkien se aproximam um pouco mais do sagrado e não são atormentadas por questões tão mundanas, são seres exemplares e geralmente honrosos, um pouco mais de beleza e suavidade. Já as personagens de Martin, elas me parecem arranhar, dão um sentimento mais forte de raiva, indignação, ou um carisma maior – mas isso quer dizer que elas são mais humanas, portanto, são mais sujas, apresentam mais conflitos éticos e essas coisas comuns, bem como a presença comum de bordéis, sexo, homoafetividade, e sentimentos mais feios são constantes, como a vingança , e o desejo de cabeças rolando por puro prazer – aliás, o prazer move muitas coisas ali, esse desejinho incoerente, rsrs. Até mesmo as personagens más do Tolkien são mais grandiosas e espertas – desde Morgoth que f**eu com tudo, até Saruman (seu faxineiro, rsrs), que em humilde simplicidade constrói aberrações inumanas mortais. Porém, parece-me que Martin trabalha um pouco mais toda essa inconstância humana e espírito de almas.
Série de livros de G. Martin (Fonte: Amazon)
                    Série de livros de G. Marin (Foto: Amazon)


- complexidade e coerência da obra. Bem, até que não dá pra falar muito em coerência quando o assunto é Tolkien. Mas complexidade dá. Os terrenos de ambientação são inigualáveis. Tolkien moldou três eras longas e recheadas de mitos, lendas, heróis e anti-heróis, bem como explicou em epopeia o nascimento do mundo e de cada ser habitante da “atual” Terra Média. Confesso não ser perita em Martin. Mas até hoje nunca ouvi falar sobre como Westeros surgiu, ou da onde vieram os Outros. Existem passagens que tentam explicar e dão sugestões sobre o passado remoto de seu mundo, dando a ilusão de que um dia tudo vai se encaixar. Mas não. São passagens vagas e tu fica: “tá, e daí, o que veio depois?”, contrastando com toda a riqueza de detalhes e sofisticações tolkenianas. Além das línguas de Westeros, que sabemos que existem, mas até agora, nada mais2. Mas sobre Sindarin e Quenya existem quase dicionários deixados por Tolkien. Na realidade, não creio existir obra tão complexa quanto a história de Arda/Terra Média e seus povos.
Confesso que tentei ser imparcial, mas talvez não tenha dado. Minha predileção por tolkenidades é visível e tá explodindo do texto. Mas nem de longe eu quis falar mal ou depreciar GoT. Estou adorando a série, é envolvente e tudo o mais. Podem ler as resenhas abaixo ;)

E no fim, para não ficar no vácuo, a maior constatação de todas: não dá para comparar o incomparável – sem querer dizer que uma é melhor que a outra, porque elas são DIFERENTES, cada qual tem qualidades únicas e memoráveis. Acho que isso põe um ponto final, não é?


Quem tiver objeções, manifeste-se.


Notas:
1. Por SdA identifico toda a obra tolkeniana, Silmarillion e etc. Li apenas até o segundo livro da série As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin, da qual o primeiro livro é o Guerra dos Tronos - mas vou continuar - são 5.
2. Justamente por não ter terminado a série d'As Crônicas não posso afirmar que não existam explicações maiores e adendos. Mas até agora, não li a respeito - o que pode ser um engano confesso.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

A Fúria dos Reis - Resenha


A continuação de A Guerra dos Tronos, o segundo livro da série “as Crônicas de Gelo e Fogo”, A Fúria dos Reis, exibe mais precisamente todo o talento de G. R. R. Martin. Nesse episódio, o Reino encontra-se em caos. Quatro (ou 5...) Reis tentam reinar onde a desordem prevalece e os ânimos se alvoroçam, e a trama segue se misturando com os destinos desses Reis, seus maniqueísmos e manipulações.

Nos Sete Reinos, predominam os saques e roubos, os incêndios e a destruição. Em Porto Real, cidade onde agora reina a pobreza, Tyrion segue com suas artimanhas surpreendentes, enquanto Cersei, má e altiva, governa em nome do tolo e cruel Joffrey. Robb Stark continua liderando seu exército até então vitorioso contra os Lannister, enquanto Stannis se alia a forças desconhecidas para a conquista do que reclama seu por direito.

No Norte, Jon tem de abandonar o grupo, lutando pela própria vida, enquanto as maiores ameaças para o Reino se moldam. Porém, lá no Leste, Daenarys atravessa desventuras e ameaça cruzar os mares em busca de sua coroa prometida, ao tempo que seus bebês crescem. Sansa e Arya vivem momentos de desespero e descobertas.

O enredo criado dessa vez é fantástico. Mas, embora Martin seja capaz de nos proporcionar ansiedade e curiosidade, também tem os capítulos de marasmo, dito os de Catelyn. Mas na maior parte do tempo, somos carregados para dentro dessas páginas com entusiasmo, conhecendo melhor esse mundo de glórias, desonras e traições que pairam por toda a história, onde vemos toda a miséria humana, mas também sua altivez, e o que menos se espera nos surpreende na próxima página; é todo esse mistério e essa trama de personagens complexas que faz da série de Martin algo merecedor de atenção, magnificamente ambientada numa Idade Média em grandes proporções e com toques de intensa fantasia, além de, talvez o mais atrativo para muita gente, o realismo que nos faz envolver com cada sentimento, nos trazendo o ódio ou a compaixão para determinadas personagens, avivando com maestria todo o ambiente, e nos fazendo crer habitar lugares já visitados pelas lembranças.








Ed. Leya
2011
656 páginas


domingo, 6 de maio de 2012

Os Filhos de Húrin, Resenha (agora é a minha)


Os Filhos de Húrin trata do desfecho histórico e trágico da família de Húrin, especialmente através dos passos errantes do seu filho, Túrin Turambar, que quer dizer “Mestre do Destino”. Bom, o épico não foi finalizado por Tolkien, que deixou alguns trechos inacabados e pontos em discordância. Mas a história é uma das mais completas e desenvolvida d’O livro dos contos perdidos. Sobre a história, Tolkien afirmava que era um conto compreensível por si só, mesmo com um conhecimento vago do plano de fundo, mas não isentava a importância que esses contos “isolados” mantinham com a história geral, sendo eles “elos fundamentais do ciclo”. O mestre responsável pela bela organização do vasto material espalhado por aí em folhas soltas e notas de rodapés foi seu filho Christopher Tolkien. Hoje ele já tem 88 anos. A história de Túrin já existia em 1919, se não antes, segundo ele. Só cito os números, porque eles me impressionam. Já faz tanto tempo, e as histórias não perdem sua magia, magnificência NEM soberania.

Por tudo isso, superindico a leitura para os não fãs de Tolkien (ahn, isso é possível?). Não é preciso entender a história do Anel (ele ainda não existia, keep calm) ou visualizar a Terra Média inteira.

OK. A leitura é linda, bela, mágica, me surpreendeu do inicio ao fim, mesmo já conhecendo a história. Húrin e sua família são amaldiçoados por Morgoth, o então Senhor do Escuro (muito mais fodão que o Sauron, seu vassalo). A partir de então, todos os passos de Túrin são cobertos por escuridão e desgraça. Comete atos heroicos , e vira sim, uma espécie de herói, temido e amado. Mas tudo o que ele faz tem a mão do mal, e por isso ele traz infelicidade e tragédias a todos que o rodeiam.

A narrativa é ora melancólica, ora excitante e exaltante. É um pequeno épico, uma pequena história repleta de belas palavras, elfos sábios, homens cruéis e anões duvidosos, onde a força do mal predomina e a Escuridão ameaça pairar sobre o mundo definitivamente. É uma história sombria, definitivamente a mais sombria de Tolkien. Arrepia a alma e meu coração bate mais forte. Tenho dito.

“- Cabed-em-Aras, Cabed Naeramarth! – exclamou. – Não poluirei tuas águas onde Níniel foi lavada. Pois todos os meus atos foram maus, e o último foi o pior.
Então puxou da espada e disse: - Salve, Gurthang, ferro da morte, somente tu me restas agora! Mas que senhor ou lealdade conheces a não ser a mão que te empunha? Não recuas diante de sangue nenhum. Tomarás Túrin Turambar?” 



E como eu não gosto de fazer resenhas estilo “resumo”, contando toda a história, podem conhecer mais da história AQUI, nessa outra bela resenha.


Não ficou com vontade??

domingo, 8 de abril de 2012

A Guerra dos Tronos, A resenha.

Buenas. Vai ser difícil de falar (ou escrever...) sobre este livro. Primeiro, ainda estou no segundo da série de 4 (aqui no Brasil...lá fora já são 5), e depois, por que ele é um tanto complexo, mesmo. Mas a gente tenta! Como não é do meu feitio, essa resenha não do tipo "resumo" (aliás, geralmente odeio isso). Gosto mais de falar das impressões e considerações que considero relevantes.

Só pelo Prólogo de A Guerra dos Tronos, já dá pra sentir um pouco como vamos ficar sem fôlego através do poderoso épico de George R. R. Martin. Mas o começo é meio decepcionante, parece que ele não está falando nada com nada, e a série interminável de apresentações de novos nomes, características, famílias e personalidades é cansativa. Mas se aprende a desapegar, porque depois tudo vai fazendo sentido e vamos nos acostumando. Digo isso como um incentivo, porque minha mãe parou nos primeiros capítulos e eu juro que tive essa vontade. Mas fui adiante, e foi recompensador.

O que toma parte nesse livro é a Guerra pelo Trono de Ferro, que governa os Sete Reinos de Westeros. Uma teia de intrigas e imprevistos entre famílias tradicionais é o miolo de tudo o que se passa.

Cada capítulo cria um novo enredo e um novo mistério. De fato, mistérios é o que não falta na novela épica de Martin. O fundamental do livro são as intrigas e oposições, os conflitos sobre honra e dever. A ambição também ganha um espaço considerável nas preocupações pessoais. E cada personagem vai se moldando, de forma profunda, sempre seguindo algum desses princípios morais (ou não tão cheios de moral assim). Cada pessoa na obra tem uma particularidade, e histórias profundas. Algumas vão se mostrando mais exemplares, e outras têm um caráter duvidoso, sempre escondido atrás de narcisismos notáveis. Muitas vezes, vemos a evolução da personagem, nos envolvendo e cativando. É difícil não se apegar a alguns papéis, e ficarmos emocionados com o seu desenvolvimento.
Daenarys

Martin tem o dom de fazer de que de cada diálogo sobre uma dúvida ou uma faísca que vai gerar o incêndio, e surpresas são comuns, embora os personagens mantenham-se sempre no mesmo caráter pré-moldado (até agora). É honra até a morte, e que a morte nos tire a honra. Com duas ou três exceções, personagens muito bem elaboradas e intrigantes, geralmente sabemos o que podemos esperar das outras.

Passagens assustadoras e cheias de suspense também enchem algumas páginas com um certo louvor. Mas, incomum para mim até agora, nesse tipo de literatura, eram as infinitas citações às putas e bordéis. Nada contra, um pouco de sujeira para um mundo paralelo (posso chamar assim? Afinal, não é a Terra Média...) que mais remete à Idade Média (do mundo ordinário).

Críticas também às narrações de guerra. Na verdade, elas quase nem existem. A guerra só começa, e depois termina (até agora foi assim, praticamente).

John, Bran e Robb Stark

Maaaas embora eu tenha achado alguns pontos fracos, de longe passa a ser uma obra ruim. É complexa, dentro da sua capacidade, e bem escrita, cheia de pegadinhas e humores, e recomendo a qualquer bom leitor com paciência. De fato, a literatura fantástica ficou renovadíssima e com um novo fôlego!

A HBO criou a série homônima, muito aclamada e de produção excelente, já estou viciada também. Rsrsr, mas algumas passagens deixam a desejar, e não, não é tão fiel ao livro assim. As imagens são retiradas da série.

O Princípio do Estado, pequena nota

"O Princípio do Estado e outros ensaios" é uma notável obra Anarquista, onde Bakunin defende a sociedade livre de Estado, sendo este o gerador de toda miséria e opressão sobre o povo. Ataca igualmente a Religião.  Consta de ensaio homônimo de março de 1871, mais “A Comuna de Paris e a noção de Estado”, de junho do mesmo ano, e mais três conferências feitas aos operários franceses, em maio de mil oitocentos e setenta e um, período este de “grande efervescência revolucionária”.

De inteligência sem tamanho, lendo uma vez, começa-se a entender (e pensar mais, também...).

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin é considerado o fundador do sindicalismo revolucionário e o expoente máximo do que passou a se chamar anarquismo, a partir de sua expulsão da Internacional em 1872.
 
Editora hedra, aêê!
138 páginas.














Próximo a considerar:


domingo, 1 de abril de 2012

Os Filhos de Húrin - a melhor resenha

Ia resenhar "Os Filhos de Húrin", mas não posso deixar de postar esse achado. É uma resenha completa e sentimentalista, capaz de evocar sensações provocadas pelo próprio livro. É uma resenha da imprensa internacional da época da publicação do livro, da revista eletrônica Salon.com, e eu achei na Valinor.
É bem longa, mas não é cansativa, e é perfeita e condizente, misturando fatos históricos da vida de Tolkien.



Senhor das ruínas

Christopher, filho de J.R.R. Tolkien,
passou mais de 30 anos montando fragmentos que seu pai deixou para
trás. Agora, os leitores podem descobrir o que aconteceu 6.000 anos
antes de Bilbo Bolseiro encontrar o Um Anel.

por Andrew o'Hehir



Depois de alguns capítulos da narrativa de "The Children of Húrin", o
livro mais ou menos novo mais ou menos escrito por J.R.R. Tolkien, um
carpinteiro aleijado chamado Sador contempla seu trabalho abandonado
com emoções misturadas. Sador é um servo fiel de Húrin, senhor da Casa
de Hador na terra de Dor-lómin, e estava esculpindo uma grande cadeira
para seu mestre. Mas, meses antes, Húrin cavalgou para uma batalha que
terminou em derrota terrível. Ele não retornou, e suas terras foram
conquistadas e pilhadas por forasteiros. Assim, Sador deixou de
trabalhar na cadeira, e ela "foi enfiada num canto, incompleta".

Enquanto tenta decidir se deve desmontar a cadeira e usá-la como lenha
no inverno, Sador conversa com Túrin, o filho pequeno de Húrin que logo
será mandado para o exílio e tornar-se-á o herói andante e amaldiçoado
dessa história sombria, sangrenta e apaixonante. "Perdi meu tempo", diz
Sador sobre sua longa labuta, "embora as horas parecessem agradáveis.
Mas todas as coisas desse tipo são de vida curta; e a alegria da
criação é seu único fim, imagino."

É impossível não ouvir John Ronald Reuel Tolkien repreendendo ou
consolando a si mesmo com essas palavras. Ao morrer, em 1973, Tolkien
deixou para trás as ruínas impublicáveis de um imenso conjunto de
literatura lendária, englobando uma história imaginária inteira do
mundo, da criação até épocas quase modernas. Os grandes episódios
heróicos dessa história – os elementos que ele considerava os mais
importantes – foram escritos apenas de forma sumária ou em fragmentos,
apesar de numerosas tentativas de transformá-los em prosa narrativa ou
poesia épica. Ele teve um sucesso acadêmico significativo como
lingüista e filólogo em Oxford, mas a maior parte de sua carreira
literária foi gasta desperdiçando energia em projetos que Tolkien nunca
completava. Ele era atormentado por bloqueios criativos, humores
sombrios e numerosas mudanças de rumo. Enfiou muitas cadeiras
incompletas num canto.

Tolkien ainda poderia ser recordado dessa maneira por algum grupelho
minúsculo de admiradores, se não fosse pela única parte de sua história
- na mente dele algo relativamente sem importância, tirado dos estágios
posteriores de seu "legendarium", mas que tinha um foco unicamente
íntimo e pessoal – que ele transformou numa narrativa de larga escala.
Tolkien tinha 62 anos quando publicou o primeiro volume de "O Senhor
dos Anéis", sua obra-prima de fantasia responsável por definir esse
gênero, e mais de 70 quando a popularidade explosiva do livro o tornou
rico e famoso. Não há como negar que a história do hobbit Frodo e de
seu pequeno grupo de companheiros, que encaram uma perigosa jornada com
o Um Anel de Sauron, o Senhor do Escuro, está entre os livros mais
queridos já publicados. Inevitavelmente, para a maioria de seus
leitores o enorme conjunto de tradições por trás do livro não passa de
um pano de fundo curioso, cheio de genealogias incompreensíveis,
línguas inventadas e nomes impronunciáveis.

Contudo, como bem sabe o universo de fãs viciados de Tolkien – um
universo que nem é tão pequeno, aliás – o autor tinha imaginado e
examinado cada detalhe de sua criação, de forma tão detalhada quanto
havia feito Ilúvatar, o equivalente de Javé que criou a Terra e deu
vida a Elfos e Homens. (A linguagem de Tolkien, assim como sua visão de
mundo, nunca é neutra em termos de gênero.) Nenhum autor de fantasia ou
de qualquer outro gênero jamais construiu um mundo com tanta densidade
histórica e lingüística; chega a parecer que esse imenso trabalho de
arquiteto exauriu Tolkien e, com exceção da narrativa de "O Senhor dos
Anéis", não lhe tenha sobrado energia para contar suas histórias.


Por mais de 30 anos, Christopher Tolkien, que trabalha como
testamenteiro literário de seu pai, tem revelado fragmentos e pedaços
do baú tolkieniano, quase como um ferreiro anão tentando reforjar uma
grande espada élfica a partir de agulhas e lascas espalhadas. Embora "O
Silmarillion" tenha sido um best-seller quando foi publicado em 1977,
por exemplo, só os fãs mais durões de Tolkien atravessaram seus
sumários secos e empolados de grandes feitos do passado distante. O
próprio Christopher Tolkien escreveu, com seu circunlóquio
característico, que "o estilo e forma de compêndio ou epítome de 'O
Silmarillion', com sua sugestão de eras de poesia e 'tradição' por trás
deles, evoca fortemente um senso de 'histórias não-contadas', mesmo
quando elas são contadas. A 'distância' nunca se perde. Não há urgência
narrativa, a pressão e o medo do evento imediato e desconhecido. Não
vemos as Silmarils do mesmo jeito que vemos o Anel."


Christopher Tolkien tem hoje 81 anos, a mesma idade que o pai dele
quando morreu, e pode-se imaginar que "The Children of Húrin" é sua
última e melhor tentativa de contar uma das grandes "histórias
não-contadas" de Tolkien em algo próximo a uma forma completa. Ele
trabalhou de forma contínua e árdua para reunir pedaços de manuscritos
que aparentemente recuam até 1918, quando Tolkien concebeu
originalmente a história, e que continuam quase até o fim da vida dele.
A história de Húrin de Dor-lómin, de seu filho Túrin e da luta fadada
ao fracasso dos dois contra Morgoth (o "Grande Inimigo" de Elfos e
Homens, senhor e mestre de Sauron) foi contada duas vezes antes,
primeiro em "O Silmarillion" e novamente no volume "Contos Inacabados"
(1980), editado por Christopher. Ela emerge aqui pela primeira vez como
um relato de aventura, com toda a sua urgência narrativa, medo do
desconhecido e personagens reconhecivelmente humanos.


"The Children of Húrin" vai empolgar alguns leitores e deixar outros
desanimados, mas vai surpreender quase todo mundo. Se você está
procurando a acessibilidade, o lado lírico e acima de tudo o otimismo
de "O Senhor dos Anéis", bom, é melhor ir lê-lo de novo. Não há hobbits
nem Tom Bombadil, nada de estalagens aconchegantes na beira da estrada
e muito pouca alegria à beira do fogo de qualquer tipo. Esta é uma
história cujo herói é culpado de traição e assassinato múltiplo, uma
história de estupro e pilhagem e incesto e ganância e gloriosas
batalhas que nunca deveriam ter sido travadas.


Se "O Senhor dos Anéis"
é uma história na qual o bem vence o mal, esta aqui caminha
inexoravelmente para o outro lado.
Embora os leitores casuais de "O Senhor dos Anéis" possam se assustar,
"The Children of Húrin" não exige nerdice nível Silmarillion. Qualquer
fã médio de Tolkien com apetite pelos cantos mais escuros e estranhos
de seu reino vai se deixar prender rapidamente pela saga sangrenta de
Húrin, que desafia o temido Morgoth e é torturado sem piedade, e Túrin,
o guerreiro lendário cujos grandes feitos arrastam tudo e todos que ele
ama para o desastre completo. Ou, pelo menos, vai se deixar prender se
conseguir atravessar as primeiras páginas.


Inicialmente, "The Children of Húrin" tem aquele estilo empolado de
Tolkien em seus momentos mais emperrados. Esta é a terceira sentença do
capítulo 1: "Sua filha Glóredhel desposou Haldir, filho de Halmir,
senhor dos homens de Brethil; e na mesma festa seu filho Galdor, o Alto
desposou Hareth, a filha de Halmir". (Aliás, nenhuma das pessoas nessa
sentença aparece de novo.) Eu ainda precisei consultar os mapas,
índices e apêndices completos e muito úteis de Christopher Tolkien de
vez em quando para recordar a nomenclatura geográfica e genealógica – e
voltei a "O Silmarillion" algumas vezes para entender o contexto
histórico – mas me incomodei cada vez menos com isso conforme as horas
passavam e a luta terrível de Túrin contra o mal interno e externo
ficava cada vez mais horrenda.


As aventuras de Túrin se passam na "Primeira Era" da Terra-média de
Tolkien, uns 6.000 anos antes de Bilbo Bolseiro achar o Um Anel, de
forma que, fora algumas referências a Sauron, o lugar-tenente de
Morgoth, quase não há intersecção entre essa história e "O Senhor dos
Anéis". (Eu disse quase; preste atenção!) Túrin nasce num mundo em
guerra, onde a antiga aliança de Elfos e Homens está perdendo terreno
gradualmente numa longa luta com Morgoth, o qual lançou de sua
fortaleza em Angband o equivalente do mundo antigo das armas de
destruição em massa.


Ele conjurou ou criou ou perverteu uma raça de
demônios letais chamados Balrogs (um dos quais aparece em "A Sociedade
do Anel") e revelou um grande dragão chamado Glaurung, cujas armas
incluem tanto o fogo quanto o diálogo sarcástico. (Ele é provavelmente
o pai ou o avô de Smaug, que Bilbo encontra em "O Hobbit".) Logo depois
que as forças de Húrin e os outros grandes exércitos de Elfos e Homens
são estraçalhadas por Morgoth na Nirnaeth Arnoediad ("a Batalha das
Lágrimas Incontáveis"), o mundo ocidental é engolfado pelo caos. (Ainda
estamos muito no começo do livro, e eu não citei nenhum grande spoiler.


Mas saia agora se não quiser mais detalhes da trama.) Uns poucos reinos
élficos ocultos continuam protegidos, incluindo a fortaleza de
Nargothrond, a cidade secreta de Gondolin e a floresta de Doriath – uma
espécie de precursora de Lothlórien em "O Senhor dos Anéis" -, mas os
reinos dos Homens são tomados pelas forças de Morgoth.
Mandado para longe de sua mãe e de sua irmã ainda não-nascida quando
garoto, Túrin se torna o filho adotivo de Thingol, o rei élfico de
Doriath, e torna-se um guerreiro feroz quando adulto.


Mas elfos
imortais e homens mortais não se misturam com facilidade, e nem
Thingol sabe que Morgoth, que está mantendo aprisionado o desafiador
Húrin, colocou a família inteira do herói sob uma maldição horrenda.
Morgoth, aliás, não é só aquele típico demônio de romance de fantasia -
na origem, ele era o maior dos Ainur, os espíritos divinos que cantaram
com Ilúvatar e criaram o mundo. "A sombra do meu propósito jaz sobre
Arda [a Terra]", diz Morgoth, "e tudo o que está nela se inclina lenta
e certamente à minha vontade."


Ao contrário de Sauron em "O Senhor dos Anéis", o Morgoth de "The
Children of Húrin" aparece como um ser físico malévolo mas sofisticado,
tal como os deuses da mitologia grega e nórdica aparecem para os seres
humanos. De fato, toda essa história apresenta uma visão sombria e
visceral da vida, muito mais próxima do fatalismo dos antigos mitos
europeus do que do bom-senso rural e inglês dos hobbits, que funciona
como base moral de "O Senhor dos Anéis".


Parte disso vem do fato de que "The Children of Húrin" é principalmente
uma história sobre seres humanos, sempre as figuras moralmente mais
ambíguas do universo de Tolkien. Embora seja claramente o herói da
história e um grande guerreiro de sua época, Túrin não pode ser
descrito adequadamente como bom ou mal. Como Édipo ou Siegfried ou o
herói do épico finlandês "Kalevala" (um dos modelos de Tolkien), ele é
definido pela nuvem escura do destino que jaz sobre ele. É amaldiçoado
por um poder grande demais para ser derrotado ou eludido, mas seu
próprio temperamento só torna as coisas piores, como uma mosca que se
sacode numa teia de aranha.


Ele é arrogante, cabeça-dura, de
temperamento explosivo e inclinado à violência, e os que o amam e se
tornam seus amigos são sugados por seu vórtex sombrio.
Túrin torna-se um famoso amigo-dos-elfos e matador dos Orcs de Morgoth;
no fim do livro, realiza um ato de heroísmo lendário, o tipo de coisa
sobre a qual as pessoas ainda estavam cantando baladas na época de
Frodo. Mas, ao longo do caminho, ele também se torna um fora-da-lei que
tolera banditismo e brutalidade entre seus homens, um conselheiro
prestigioso cujas palavras só levam à perdição, um homem que mata um de
seus melhores amigos e depois rouba o amor de seu outro amigo. (É claro
que ela acaba se revelando exatamente a mulher errada para ele,
responsável por selar seu destino.) Não fica muito claro se Morgoth
realmente precisa amaldiçoar esse sujeito; ele faz um serviço muito bom
ao amaldiçoar a si mesmo a cada passo.


Terminei "The Children of Húrin" com um apreço renovado pelo fato de
que a narrativa de Tolkien é muito mais ambígua em tom do que
normalmente se nota. Como já se disse várias vezes, ele era um católico
devoto que tentou, com sucesso imperfeito, harmonizar a violenta
cosmologia pagã por trás de seu universo imaginativo com a crença numa
salvação cristã. A salvação parece muito distante em "The Children of
Húrin". O que fica em primeiro plano é aquela sensação tolkieniana
persistente de que o bem e o mal estão travando uma luta maniqueísta
não-resolvida com fronteiras amorfas, e que o mundo é um lugar de
tristeza e perda, cujos habitantes humanos freqüentemente são os
agentes de sua própria destruição.

A Vez do Bola-de-Neve, depois da Revolução dos Bichos.


A Vez do Bola-de-Neve é uma paródia demolidora que traz para o mundo globalizado A Revolução dos Bichos, de George Orwell sobre o stalinismo. [...] Nessa história de John Reed,, Bola-de-Neve, o porco trotskista expulso na ficção de Orwell, volta à Granja em decadência para instaurar nela o capitalismo avançado, fundado em luxo, individualismo e competitividade. Na floresta vizinha, castores massacrados no vale tudo do mercado resolvem se vingar realizando um sangrento ataque aos Moinhos Gêmeos [...].”

Não há muito a acrescentar ao texto da contracapa do livro, já que o enredo e a história são meio enfadonhos. Não há clímax ou emoção, apenas a rotina fatigante e cada vez mais capitalista dos porcos, cavalos, burros, patos e toda sorte de animais que vão viver na Granja, encantados com o sonho colorido de conforto e riqueza que a ascensão capitalista da Granja instaura em todos. Mas não deixa de ser interessante ao analisá-la, fazendo uma comparação com a nossa própria forma de sociedade atual, bruta e insensível, da mesma forma que os porcos tratam os outros animais, considerando-se superiores. E ao ler, mesmo A Revolução dos Bichos, ou A Vez do Bola-de-Neve, não deixo de ficar triste pensando na exploração animal, ou ainda, como queremos que nossos conceitos e modos humanos sejam aplicados e instaurados na vida de espécies alheias. Isso é ir além, e deixa pra depois, como quase tudo que requer muito esforço da mente...

TRECHO DO LIVRO

Obs: Não é o mesmo John Reed de México Rebelde. Isso causou grande confusão na minha cabeça, e decepção também :(

segunda-feira, 26 de março de 2012

Resenha: A cor que caiu do espaço, de Lovecraft.

Há pouco terminei uma nova história que pretendo lhe enviar na minha próxima correspondência. Ela tem lampejos quase poéticos, embora seja em boa parte realista, com uma ambientação prosaica ‘a oeste de Arkham’. Algo cai do céu e o terror se instaura. Tudo é narrado por um velho quarenta anos depois; e o título é ‘A Cor que Caiu do Espaço’.

Assim estava notificada a conclusão do conto, em 26 de março de 1927, em uma correspondência de H. P. Lovecraft.

“A cor que caiu do espaço” era considerada pelo próprio autor, história sem concisão e sem clímax. E assim o é, a narrativa segue do início até o final sem termos sabido onde foi o ponto máximo. Mas não é por isso que deixa de ser interessante, e muito menos, deixa de ser valiosa. A história foi um marco na transição de Lovecraft à ficção científica, cheia de experimentalismos e surreal.

Particularmente, sou admiradora da mente febril de Lovecraft, no que tange sua capacidade de mexer com o sobrenatural de forma majestosa. A história nos prende até o final, eu sempre fico com a respiração suspensa e ávida pelo que vem adiante. Bem, é a história sobre uma “cor”, que ninguém soube descrever com palavras ou sentimentos humanos, que chegou junto com um suposto meteoro, ninguém sabe da onde, de matéria desconhecida. A cor era como uma fumaça que avançava sobre o local, aos poucos dominando a vida que ali existia. Sua “névoa” envolvia os corpos, e a cor transformava tudo o que era vivo em coisas sobrenaturais, em corpos cinzentos e frágeis, ou conferindo cores inumanas aos rostos já moribundos afetados pela terrível ameaça; arrastava-se para o fundo do poço com os corpos mortos e se desmanchando, contaminava as águas, e ia tomando conta, lentamente, de cada pedaço da mórbida terra, transformando tudo com seu terrível espectro. 

Bem, esse seria o “miolo” da história, e embora não haja grandes novidades sobre a origem ou a definição da cor, a narrativa não deixa nada a desejar, rica em detalhes e descrições, como é comum em Lovecraft, e ele utiliza-se se um jogo de palavras para tentar definir a indecifrável "cor", que não é feita de matéria alguma. Além do uso do "extraterrestre" fora do que estamos acostumados: seus aliens não são bichinhos verdes com cabeça grande, mas têm formas indefiníveis e indefinidas, e por isso, ao nos jogar para fora do senso comum, somos apanhados na sua rede de fantasia. No final chegamos com aquela sensação de que tudo se passou ali do nosso lado, numa cidade vizinha...

O livro ainda conta com Apêndices, que complementam muito bem a leitura, incluindo a maior carta autobiográfica deixada pelo transtornado autor, e um artigo, em que ataca o gênero literário inundado pelos escritores de baixo escalão, e onde apresenta suas teorias e maneiras de como fazer a boa literatura de terror, sem cair no senso comum e na leviandade.

Como eu senti bastante dificuldade em fazer essa breve resenha, já faz tempo que li, e as palavras estão me fugindo e etc, fica um trecho:

Toda a fazenda refulgia com a horrenda mistura de cores desconhecidas; as árvores, as construções, e até mesmo a grama e as ervas que pouco tempo atrás não haviam sofrido a mutação para o cinza quebradiço e letal. todos os galhos se erguiam em direção ao céu,colmados por línguas de um fogo maldito, e rastros luminosos daquelas chamas monstruosas arrastavam-se em direção às cumeeiras da casa, do celeiro e dos galpões. Era uma cena digna das visões de Fuseli, e por todo o cenário reinava aquele caos de luminescência amorfa, aquele arco-íris extraterreno e adimensional de veneno críptico emanado do poço - pulsando, palpitando, escoando, avançando, cintilando, escorrendo e borbulhando na malignidade suprema de um cromatismo sideral irreconhecível.


Editora: Hedra
Ano: 2011
Tradutor: Guilherme da Silva Braga
Páginas: 102
$: paguei 20,00 pilas

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Fantasma de Canterville e Outros Contos - de Oscar Wilde

O Fantasma de Canterville e Outros Contos

Como já faz mais de ano que li este livro, vou poder dar poucos detalhes, apenas as impressões que ficaram. Em oito contos, Oscar Wilde passa da doçura à amargura facilmente. Da riqueza à miséria, e atravessa tormentas e alegrias. Os contos são cheios de alegorias, que trazem em simplicidade “lições de moral” de quem muito bem podia falar delas. Trata-se do amor em sua essência limpa, e também há grandes críticas sociais e políticas um pouco disfarçadas por belas histórias. Todos os contos mantém um padrão de narrativa, suave, e que na minha opinião contém todos os elementos necessários ao contos que valem a pena. É só Wilde nos contagiando com seu exemplar ecletismo e perfeccionismo literário (assim eu acho!).

Contos inclusos:
  • O Fantasma de Canterville
  • O Príncipe Feliz
  • O Crime de Lord Arthur Savile
  • O Rouxinol e a Rosa
  • O Modelo Milionário
  • O Pescador e sua Alma
  • O Foguete Notável
  • O Filho da Estrela


·         Ediouro – Coleção Universidade de Bolso. Edição bem antiga, comprada por 3 bagatelas num sebo!! :D

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Lovecraft e seus Sussurros nas Trevas

Um Sussurro nas Trevas - H.P. Lovecraft - Ed. Hedra


Mais uma vez temos os sentimentos explorados por H. P. Lovecraft. Em Um Sussurro nas Trevas, Albert Wilmarth, folclorista amador e professor de literatura na Universidade do Miskatonic, desenvolve a idéia da possível presença de seres alienígenas nas colinas de Vermont. Suas evidências são então confirmadas por um morador local, Henry Akeley, e os dois começam a se corresponder seguidamente. Nas cartas, cada vez mais perturbadoras, Akeley discorre das características de tais seres, fala das evidências, de rastros inumanos pelas terras e objetos estranhos encontrados sem precedentes. Cada vez ele parece mais apavorado, e presenciamos toda angústia e terror nas suas cartas misteriosas. Até que Wilmarth, fascinado, foi ao seu encontro e encontrou tudo o que esperava (ou não), em revelações perturbadoras que nos mantém atentos e desconfiados, até a descoberta de cilindros metálicos que contém um cérebro que mantém as capacidades olfativa, auditiva e da fala, sendo este o método alienígena de levar humanos a viagens através do espaço. O final é um tanto desesperador, e como se esperaria, surpreendente. A narrativa é rica em detalhes geográficos, embora às vezes um pouco lenta nas descrições, mas transborda de tensão, que se desenvolve passo a passo rumo ao ápice do terror. O uso da ficção científica dá um tom a mais ao sobrenatural, e as referências às lendas Cthulhianas e livros sobre a origem do Universo tornam o todo o tema mais dramático, juntamente com as especulações das origens do Universo. Não dá pra negar que às vezes precisamos fazer pausas para recuperar o ar, porque somos envolvidos pela atmosfera sobrenatural e realismo de algumas passagens tensas, como se o escritor tivesse mergulhado num mar profundo de horrores e levasse junto, sem dar chances, o leitor.


Vanessa Dalla
25/10/2011

Trecho:

Nunca um homem são esteve tão perto dos mistérios arcanos da entidade primordial – nunca um cérebro orgânico esteve tão próximo da aniquilação total perante que transcende as formas e as forças e as simetrias. Aprendi sobre as origens de Cthulhu e sobre o motivo que levou metade das grandes estrelas temporárias a se acender [...]e tive um sobressalto de repulsa quando ouvi detalhes a respeito do monstruoso caos nuclear além do espaço anguloso que o Necronomicon piedosamente oculta sob o nome de Azathoth. [...] Defrontei-me com evidências inelutáveis de que os primeiros a sussurrar essas histórias amaldiçoadas tivessem estabelecido contato com as Criaturas Siderais e talvez visitado reinos cósmicos longínquos, tal como Akeley propunha-se a visitar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Mais de O Hobbit - reedições e comentários

“Em fins de 1932, Tolkien pôde entregar à Lewis um maço de papéis para serem lidos. Era o esboço incompleto daquilo que se tornaria O Hobbit: ou Lá e de volta outra vez (The Hobbit or There and Back Again). Lewis descreveu sua reação ao livro numa carta para Arthur Greeves: ‘Foi esquisito ler esse conto de fadas – é exatamente o que ambos teríamos almejado escrever (ou ler) em 1916, de modo que se sente que ele não está inventando, mas meramente descrevendo o mesmo mundo para o qual todos os três temos passaporte.’”

Quando eu li este trecho, fiquei até emocionada, porque tenho uma relação com os contos da Terra-Média, que às vezes eles me vêm aos olhos e se tornam reais, e defendo a teoria de que Tolkien não simplesmente “inventou” tudo, mas isto sempre esteve lá, como num mundo paralelo, esperando para ser exposto (rsrsr). De fato, esta é a grande dimensão de qualquer boa história de fantasia, trazer a idéia de realidade co-existente. Mas Tolkien não é só isso.

A primeira edição do Hobbit foi publicada em 21 de setembro de 1937, completada por ilustrações do próprio Tolkien, com tiragem de 1.500 exemplares. De fato, o Hobbit começou como história contada do pai para os filhos John e Michael, antes de 1930, mas começou a ser escrita e tomar corpo apenas depois desse ano. O caráter infantil predomina em seu estilo, e “inicialmente a história era independente do nascente ciclo mitológico O Silmarillion, e só mais tarde foi incorporada ao seu mundo e História inventados. O conto introduziu os hobbits na Terra-Média, afetando dramaticamente os acontecimentos ali.”

Nesta fantasia, o hobbit herói é o sr. Bilbo Bolseiro, que descobre um anel mágico, o Um Anel. Esta descoberta é o elo entre O Hobbit e sua grande continuação, O Senhor dos Anéis. Em 1951, houve uma nova publicação do livro (O Hobbit), revisada, por conta de alterações no capítulo 5 que deveriam ser feitas para darem sustento e correta continuidade entre os dois livros, de acordo com o grande significado do achado do Anel.

Fato impressionante é a habilidade de Tolkien em ligar suas obras, em sustentar seus mitos e suas correlações. O conhecimento do próprio trabalho é além da “simples” imaginação, de uma sabedoria inigualável.

Também é notável a sua habilidade em ajustar ao nível infantil o grande poder mitológico empregado, utilizando-se de nomes simples, que em outras obras tomam formas élficas complexas.

Fonte: tirei muitos dados e trechos do livro “O Dom da Amizade – Tolkien e Lewis”, que estou lendo e é ótimo, do autor e grande estudioso Colin Duriez.

domingo, 28 de agosto de 2011

O desabafo em Carta ao Pai


  Kafka, que já havia escrito suas célebres obras A metamorfose e O processo, porém que ainda não haviam recebido devido merecimento, dispõe em “Carta ao Pai” todas suas angústias e aflições em relação a seu conturbado convívio familiar. É uma obra emocionante, onde o escritor põe com palavras cruas e diretas todos ressentimentos de uma vida sem muitas alegrias, e, principalmente, suas profundas mágoas em relação ao pai, com quem teve uma relação conturbada e de imposições, culpas, amarguras, chegando a chamar o pai de “tirano”, “rei”, até comparando-o com “Deus”, dono do Universo onde apenas uma opinião importava – a sua própria. Assim Kafka viu, ao longo da infância conturbada, todas as admirações inerentes à um pai irem por terra, todos os seus anseios esmagados e diminuídos à uma insignificância que foram dando lugar à uma grande sensação de nulidade e amargura, fazendo crescer uma pessoa desiludida, sem coragem de dar prosseguimento aos projetos mais íntimos, vivendo na sombra de um pai ameaçador. Em sentimentos confusos, ora de culpa, ora de raiva, numa profunda autoanálise, Kafka ainda culpa o pai por ter tirado-lhe a chance de qualquer amor próprio e autoestima, o que resultou nos seus fracassos, inclusive o literário, em sua falta de escolhas e sua personalidade abatida e recuante. Para essa sua personalidade, o autor tenta justificar-se perante o pior dos tribunais – o paterno, fazendo-se estender diante do leitor todos severos erros cometidos pelo pai na educação do filho.

A carta foi escrita em mais de 100 páginas manuscritas, quando tinha então 36 anos e uma vida sem grandes motivações, revelando sentimentos da mais profunda angústia. Inicialmente, Kafka tinha a mesmo o intuito de enviá-la ao pai, com a intenção de fazer melhorar a relação entre os dois, porém esta nunca chegou ao destinatário, e não se sabe bem o porquê.

Hoje a Carta ao Pai tem um enorme valor literário, por seus caráter psicológico, pela análise do conflito, pela bela estética que ressalta a luta interior travada por Kafka – fazendo dele o próprio centro de sua obra.

Aqui, nessa breve apresentação, não é possível falar de todo sobre Kafka, principalmente porque sua vida é ainda hoje estudada e muito densa, revelando muitos aspectos mais profundos e fora de meu alcance, hoje, que são representados em suas obras com grande caráter autobiográfico, outro caráter relevante.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Tom Bombadilo, Bom Bombadil

Edição Bilíngue
Tradutores: William Lagos e Ronald Eduard Kyrmse
Editora Martins Fontes
2010


A apresentação do livro começa com o prefácio, que discorre da origem dos poemas, a maioria proveniente do Livro Vermelho e escritos ou revisados por Bilbo ou Sam Gamgi. Dá uma breve introdução dos temas dos poemas, escridos sob forte influência dos acontecimentos  transcorridos no final da Terceira Era, e que empregam, muitas vezes, grande conhecimento geográfico e histórico, e que ainda abordam lendas de Gondor e tradições élficas da Segunda Era, ou ainda contos numenorianos dos dias heróicos do final da Primeira Era.
Estes versos de origem hobbitiana “trazem em geral duas características em comum. Apreciam o emprego de palavras incomuns e deartifícios de rima e de métrica em sua simplicidade. […] Também são, pelo menos superficialmente, alegres ou frívolos, embora às vezes possamos suspeitar, com certo incômodo, que pretendam significar mais que nossos ouvidos captam.”
Dos 16 textos, o Número 15 é o mais tardio, já percentence à Quarta Era, que foi inserido pois estava assinalado por uma mão desconhecida como “Frodo Dreme” [O sonho de Frodo], embora muito improvável que o próprio Frodo o tenha escrito, mas de suma importância, pois “o título demonstra que estava associado com os sonhos melancólicos e desesperados que o visitaram repetidamente nos meses de março e outubro durante seus últimos três anos”. Perturbação que, aliás, era comum de acontecer com os hobbits andarilhos; os que voltavam, ao menos, sempre se mostravam inquietos e pouco comunicativos.

Logo após, seguem-se as traduções. A de William Lagos, poeta, manteve-se fiel à métrica irregular do original, mas utilizando versos brancos, ou seja, sem rima, para a tradução acompanhar com o máximo de exatidão o original.
Já Ronald Kyrmse esforça-se na difícil tarefa (ainda mais tratando-se de Tolkien) de trazer a doçura dos versos Tolkenianos para o português, aliando seu profundo conhecimento do mundo e dos personagens à rima e à métrica.
Depois, somos abençoados com o texto original, que requer um bom conhecimento em inglês, às vezes não sendo o suficiente, já que Tolkien “inventava” palavras ou fazia outras derivações; mas ainda assim não deixa de ser delicioso e mágico, ainda mais para uma fanática (eu!), poder conhecer e imergir um pouquinho mais na história profunda e complexa com a qual nos vemos tão envolvidos.

Vou trazer pra cá um trecho de cada versão, lógico. Este poema, de 1933, introduz, além de Tom, a misteriosa Fruta d'Ouro, Salgueiro Homem e as Criaturas Tumulares.

     1.    As Aventuras de Tom Bombadill
 (Willian Lagos)

O velho Tom Bombadil era um sujeito alegre:
Sua casaca azul brilhante e suas botas amarelas,
Ele usava um cinto verde, seus calções eram de couro,
E trazia em sua cartola uma pluma de asa de cisne.
Morava ao pé da Colina, de onde o rio Voltavime
Corria de uma fonte na relva até um vale estreito.


           1. As Aventuras de Tom Bombadill
             (Ronald Kyrmse)
Bom Tom Bombadil era alegre, já se nota;
Azul claro o paletó, amarela a bota,
Verde é o cinto e de couro a calça;
No alto chapéu pena de cisne se alça.
Mora ao pé do Morro, onde o Voltavime
Do poço corre ao Covão, pra que o vale anime. 

 1. The adventures of Tom Bombadil
           (Tolkien)
Old Tom Bombadil was a merry fellow;
Bright blue his jacket was and his boots were yellow,
Green were his girdle and his breeches all of leather;
He wore in his tall hat a swan-wing feather.
He lived up under Hill, where the Withywindle
Ran from a grassy well down into the dingle.
   
Bem, estas são só as primeiras linhas. O restante, vocês descobrem!

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Campanha da Legalidade

      Estamos ouvindo falar dos 50 anos da Legalidade, movimento iniciado aqui no Rio Grande do Sul. Este foi um marco histórico pelo grande envolvimento da população na resistência. Quando da renuncia do presidente Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, esperava-se que o vice, Jango, assumisse, naturalmente. Porém este foi impedido pelos ministros militares, que eram contra, e Ranieri Mazzili, um de seus representantes, assume inteiramente a presidência. Este golpe militar desencadeia o movimento de resistência aqui no Rio Grande do Sul, iniciado e motivado por Leonel Brizola, o então governador do estado, defendendo a legalidade da posse de Jango, e que assegurou não aceitar “quaisquer golpes, não assistiremos passivamente quaisquer atentados às liberdades públicas e à ordem constitucional”. Brizola ainda pediu que “cada um” tomasse medidas contra o golpe e encerrou: “Defendemos a ordem legal, defendemos a Constituição, defendemos a honra e dignidade do povo brasileiro”. Foi instaurada a Rede Radiofônica da Legalidade, funcionando 24 horas nos porões do Palácio Piratini, contando com o apoio de jornalistas, radialistas e técnicos, e atingindo uma enorme popularidade, com Brizola mobilizando o povo e convocando o país a resistir ao golpe, em atitudes firmes e presença carismática.


    Assim, a Legalidade assegurou a posse de Jango e virou sinônimo de coragem, mas o levante também representava os anseios do povo por medidas democráticas e igualitárias. Nesse momento, as classes populares tiveram grande impacto e participação. Hoje, podemos olhar pra trás com dois sentimentos: orgulho, do movimento nascido no Estado e de grande repercussão, ou então uma grande vergonha, de termos abandonado completamente tal espírito de luta e capacidade, de hoje assistir injustiças e inúmeros golpes, porque não comparáveis ao de 61, num estado de inanição, imóveis, como se não tivéssemos uma mente capaz de pensar e um corpo capaz de lutar.


Este texto meu também foi publicado no Informol, honrado e glorioso jornal do curso de Química da UFRGS! É a informação em fentosegundos!

Mais infos: Blog da Campanha

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Naufrágios & Comentários: Resenha


        A história colonial da América é marcada por sangue, por conquistadores traiçoeiros, ameaçadores. Mas houve um singular homem que tentou a conquista por palavras gentis, a obediência pelo respeito e não pelo medo. Foi o aventureiro Cabeza de Vaca (1492 - ?), único entre os conquistadores que lutou a favor dos povos indígenas. Neste livro, temos a narração de suas aventuras América adentro, revelando os horrores infligidos aos índios, e fato do qual hoje parecemos orgulhosos ao exaltarmos em nossa completa cegueira nossas “terras conquistadas”. Com um realismo puro e uma linguagem típica da época, mergulhamos nas selvas e profundezas dos conflitos entre “civilização” e “selvagens”. Cabeza de Vaca e alguns fiéis companheiros fizeram fama entre os povos indígenas, pois os tratavam com bondade. Caminharam durante anos e chegaram a ser tidos como deuses e milagrosos, vagaram nus e famintos por meses, mas também foram presos e viveram sob clausura com uma tribo por anos. 

Edição da L&PM pocket


Mas é com tristeza com lemos a narração de conteúdo histórico, cheia de riquezas, de culturas que jamais poderemos presenciar; cheia de vida, e, ao mesmo tempo, um registro vergonhoso de nossa relação com os índios. É um preço que a humanidade vai carregar, é o sangue que jamais vai deixar de fluir nos rios. De Vaca tentava impedir esse massacre, mas ele mesmo acabou massacrado, no que era na realidade sua busca por iluminação, no doloroso abandono do pensamento de que o homem adquire força através do punhal e da adaga... Foi a prova de que um homem é capaz de mudar seu coração ao enfrentar a verdade, e passar a defendê-la como a própria vida, pois a vida do homem nada mais é do que a própria verdade.


“Para se entender o que significa não ter nada, é preciso não ter nada.”
(Cabeza de Vaca)

sábado, 13 de agosto de 2011

México Rebelde - os camponeses pegam em armas


         A situação mexicana era de caos e desordem. Generais confiscavam as terras e as administravam de seus próprios modos. Pobreza. Camponeses sem terras. Revolucionários, e entre eles, Pancho Villa.
         A Revolução mexicana de 1910 estava a toda quando John Reed, jornalista e revolucionário americano, foi enviado por um influente jornal para fazer a cobertura dos acontecimentos históricos.
John então convive com os mexicanos durante todo o desenrolar da revolução, e desnuda seus anseios por um país mais justo. Retrata a pobreza daqueles camponeses, que como uma última esperança, agarram-se na ideia da revolução e entregam seu sangue e vida por ela, em atos de coragem e amor aos companheiros, atirando-se em batalhas sanguentas e brutas como a ultima alternativa para uma vida mais digna.

Uma edição meio velhinha...
         Entre esses revolucionários, destaca-se a figura de Pancho Villa. Líder amado, outras vezes temido, mas fundamental para o sucesso dos camponeses. Ainda hoje Pancho é lembrado por suas táticas irreverentes de ataque, que teve de inventar pois nunca teve conhecimento de estratégia militar, e as abominava e desdenhava. Foi o inventor das marchas relâmpago da cavalaria e do ataque noturno no México. Atacava de forma sem precedente no país. Chegou a capturar um trem de carga dos federais, e mandava cartas ao general federal em nome do antigo comandante do trem, para não levantar suspeitas e atravessar uma grande distância com sua tropa. Chegou ao destino sem ser descoberto e fez um ataque totalmente inesperado. Em três anos, ele saiu da obscuridade e chegou à posição mais destacada do México. Mesmo assim, não tinha ganâncias para de tornar presidente, como muitos achariam normal. Dizia que um homem inculto não deve dirigir seu povo, que não saberia lidar com os homens do congresso, que não era educado e nem sabia ler. Reconhecia a falta de capacidade para o cargo: “sou um guerreiro, não um homem de Estado”. E era essa simplicidade e obstinação que fazem a figura de Pancho uma das mais notáveis que o México já lançou.


         Reed se dedica ao mostrar os caminhos políticos que o país estava levando. Faz isso com seriedade, e o mais importante, verdade. Mostra o ponto de vista da população, e luta com eles na frente de batalha, se entregando aos ideais dos mexicanos. Narra cenas de puro horror, homens despedaçados e ainda esperançosos. Tudo o que aquela gente queria era que a revolução vencesse, e era um sentimento profundo que se alastrou pelo país.  Em contrapartida, mostram-se um povo alegre nos momentos de “calmaria”, que enfrenta os problemas de frente, gente valorosa e de muito bom humor, que aproveitava as noites para fazer festa (e pelear, também) e apreciavam uma roda em volta da fogueira para cantar versos rimados de amor e revolução. O modo como eles acreditavam em Villa, no país e num futuro melhor às vezes emociona na narrativa de Reed, e a gente sente como se quisesse poder ter lutado também...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

A Bruxa e a arte do Sonhar

Florinda, que vive no mundo de dom Juan Matus (o mesmo mestre de Carlos Castaneda), é enviada para a Venezuela, local de sua origem, numa missão de buscas por respostas e perguntas. Lá chegando, em eventos do acaso, Florinda acaba por encontrar dona Mercedes Peralta, conhecida curandeira e feiticeira de uma remota região do país. Mas não é por acado que Florinda torna-se sua aprendiz, impressionado-se ao perceber o despertar de seu caminho como espiritualista e médium, através do contato com os pacientes da curandeira, que lhe contam suas histórias fantásticas, fontes de mistérios, e do grande conhecimento do mundo espiritual que Mercedes possui. Através dos dias e meses, as histórias vão se entrelaçando e criando uma teia, e Mercedes percebe que não é ela quem vai fazer um ato por Florinda, mas sim a própria Florinda foi enviada até ela para lançar sua “sombra de feiticeira” sobre Mercedes e fazer sua “roda da oportunidade” mover-se.
Em “A Bruxa e a Arte do Sonhar”, somos levados para o íntimo das histórias dessas feiticeiras, admirando-nos com a beleza da cura espiritual e do poder, e de uma história de autodescoberta fascinante e inspiradora para qualquer pessoa com sensibilidade para acercar-se dos profundos conhecimentos proporcionados por essa agradável leitura.



Trechinho:

“ - Algumas crianças têm a força para desejar alguma coisa com muita paixão por um longo período de tempo. Candelária era uma criança assim. Ela nasceu desse jeito. Ela desejou que seu pai ficasse e desejou isto sem um pingo de dúvida. Dedicação, determinação, é isto que uma feiticeira chama de sombra.”


Autora: Florinda Donner-Grau
Editora: Nova Era
Páginas: 288

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A Sombra de Innsmouth

A Sombra de Innsmouth apresenta ao leitor os horrores de um universo onde aberrações monstruosas abalam as fundações da sanidade e ameaçam o futuro da espécie humana.


Terrivelmente instigante e fascinante. A Sombra de Innsmouth, com sua notória narrativa sufocante,  leva o leitor às sombras de submundos. Robert Olmstead, o narrador desta perfeita mistura de terror e fantasia, é o sujeito curioso que resolve investigar um assunto proibido, falado aos sussurros pelas pessoas: o estranho vilarejo de Insmouth. Sobre ele surgem os mais variados boatos, aterrorizantes e  mirabolantes, sobre as almas moribundas que por lá vivem, como eles tratam os estrangeiros com arrogância e o estado decrépito da cidadezinha portuária. O mais curioso que se falava era a aparência das pessoas de lá, que pareciam sapos sobre duas pernas. Mas tudo isso não passava de boatos, até Robert lá chegar e perceber o estado de desolação do malcheiroso lugar. Não via pessoas, apenas sombras que se esgueiravam entre os muros na presença de um estranho. Olhos brilhantes e ruídos esquisitos se escondiam no escuro. Mas ao cruzar o caminho de Zaddok Allen, velho bêbado e meio alucinado, Robert desencava e desenreda informações de uma história centenária que mais parece saída de algum conto sobrenatural. Mas teriam elas fundamento, ou eram invenção da mente alucinada do velho? Ao ser perseguido pela misteriosa população, Robert presencia cenas de puro horror, e a história do pacto de ganância com demônios marinhos e da lenta transformação daquelas pessoas em peixes abomináveis finalmente aparece aos seus olhos incrédulos. Mas no que ele mesmo se transformaria, isso ele jamais poderia ter previsto.

E é assim, neste livro curto e intenso de 119 páginas, que presenciamos mais uma obra do século XX da pura literatura do horror clássico que apenas uma mente é capaz: Howard Phillips Lovecraft.
Outro aspecto de relevância é a qualidade da tradução e impressão. A tradução ficou por conta de Guilherme da Silva Braga, que dou destaque pois é excelente, além da qualidade de impressão e gráfica da Editora Hedra, que muito recomendo!



Trecho:
Será possível que nosso planeta tenha de fato engredado tais criaturas? Que olhos humanos possam mesmo ter visto, na substância da carne, o que até então o homem só havia conhecido em devaneios febris e lendas fantasiosas? E no entanto eu os vi em fileiras intermináveis – debatendo-se, saltando, coaxando, balindo – uma bestilialidade crescente sob o brilho espectral do luar, na sarabanda grotesca emaligna de um pesadelo aterrador.
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