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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Penso, logo, concluo.

A Pele da Alma


Do mesmo modo que os ossos, os músculos, as vísceras e os vasos sanguíneos estão envoltos por uma pele que torna suportável o aspecto do homem, assim também as emoções e paixões da alma estão envoltas pela vaidade: ela é a pele da alma.


O Sono da Virtude


Se a virtude dormiu, levantar-se-á com mais frescor.


Delicadeza da Vergonha


Os homens têm vergonha, não por terem algum pensamento vil, mas sim quando imaginam que se atribui a eles esses pensamentos vis.


A Maldade é Rara


A maioria dos homens está muito ocupada consigo mesma para ser má.






Transcrição de "Humano, demasiado humano", Nietzsche, 1878.

O Cristianismo como Antiguidade

Quando, numa manhã de domingo, ouvimos tocar os velhos sinos, nos perguntamos: como é possível? Isso diz respeito a um judeu, crucificado há dois mil anos, que se dizia filho de Deus! Falta a prova para semelhante afirmação. Certamente a religião cristã é, em nossa época, uma antiguidade, um vestígio de um distante passado, e o fato de que se possa acreditar nessa afirmação - enquanto, de outro modo, nos tornamos tão rigorosos na averiguação das afirmações - talvez seja a peça mais antiga dessa herança. Um Deus que gera filhos com uma mulher mortal; um sábio que recomenda não trabalhar mais, não julgar mais, mas estar atento aos sinais do iminente fim do mundo; uma justiça que aceita o inocente como vítima substituta; alguém que ordena a seus discípulos beber seu sangue; orações para pedir milagres; pecados praticados contra um Deus e expiados por um Deus; medo de um além, do qual a morte é a porta; a figura da cruz como símbolo, numa época em que já não se conhece o destino nem a ignomínia da cruz - que vento horripilante nos vem de tudo isso, como que saído do túmulo de um passado antiquíssimo!
Quem haveria de crer que ainda se acredita em semelhante coisa?

Transcrito de "Humano, demasiado humano" de Nietzsche, 1878, inclusive o título.
Capítulo 113.

Obra de Caravaggio

terça-feira, 20 de março de 2012

Encontrei esta entrevista do Carlos Castaneda, de 1975, um das raras vezes em que falou com a imprensa, à Veja. Tem passagens curiosas e interessantes, além de podemos tirar um pouco de proveito. O link original é do site consciencia.org

Posto aqui uma pequena parte.


VEJA - Muitas pessoas, eu inclusive, encontram dificuldades em aceitar factualmente as descrições dos ensinamentos de Don Juan. O senhor se preocupa com o fato de as pessoas reagirem dessa forma? 
CASTANEDA - Não, porque não dou ênfase na importância de minha pessoa. este é um ponto crucial dos ensinamentos que recebi de Don Juan. Raramente converso com alguém, e quando converso é face a face. Nada de gravadores ou fotografias, que trariam peso sobre a minha pessoa. Além de ferir uma das premissas básicas de feitiçaria e bruxaria, eu estaria tolhendo minha própria liberdade. Quando enfatizo a minha pessoa, estou me tachando a mim mesmo, estou colocando nas minhas costas um peso que vai além das minhas possibilidades de carregá-lo. Colocar tal peso nas costas é dar uma enorme importância à minha própria pessoa. Durante os ensinamentos, Don Juan fazia esboços na areia do deserto com o dedão do pé e preenchia os círculos com verbosidade. Ele dizia que "cargase a uno mismo" conduz a pessoa a um senso "importância personal" que combinados não permitem "acciones" por parte da pessoa. Quanto mais peso as pessoas acumulam, mais importantes elas se sentem, e menos ações elas executam. 

VEJA - Por que então publicou seus livros? 
CASTANEDA - Porque esta era a minha tarefa. O bruxo cumpre tarefas que são colocadas em lugar do peso sobre si mesmo e da importância pessoal. Meu trabalho não é feito de erudição, mas uma recoleção da vida que Don Juan colocou em seus ensinamentos. O bruxo cumpre as tarefas que lhe dão satisfação. Ele as cumpre sem esperar por reconhecimento da sociedade ou coisa que o valha, o que seria o "carregar-se a si mesmo" exercitado pelo erudito, com o objetivo de obter importância pessoal, o que não é meu caso. Por exemplo, se esta entrevista for tomada como um ato de bruxaria, ela se torna uma tarefa a ser cumprida. 

VEJA - Esta entrevista, seu trabalho, sua obra, e mesmo o fato de trocarmos idéias por várias horas, tem um efeito que me parece ir além do simples cumprimento de tarefas. Elas lhe trazem satisfação, caso contrário não as faria. Além do mais, o senhor espera que sua mensagem, os ensinamentos de Don Juan, tenham um impacto sobre público. Não seria este o caso de cumprir tarefas e esperar pelo reconhecimento da sociedade? 
CASTANEDA - Eu cumpro minhas tarefas tão fluidamente que elas não me afetam em termos de auto-importância, mas sim em termos de como vivo minha vida. Conheço dúzias de "professores" que se colocam numa torre de marfim de conhecimento: eles sabem tudo, e comandam o espetáculo para as galerias; quanto mais aclamados, ou quanto mais reconhecimento eles recebem, mais auto-importantes se sentem, mas esta mesma auto-importância se torna peso, a cruz a ser carregada, e eles como pessoas não são nada. O trabalho as afeta em termos de auto-importãncia, mas não em termos de vida pessoal. A mim o trabalho afeta em termos de vida pessoal, mas não de auto-importância. Don Juan me alertou e aconselhou que nunca me tornasse um pavão, "pavo real", que é o resultado à ênfase da importância pessoal. Quanto menos a pessoa pensa e "pseudo-age" em termos de auto-importância ela se torna mais completa. E quanto mais auto-importante se sente, mais incompleta se torna. O ser incompleto nasce da incessante procura por reconhecimento social.



Assim, acabo perguntando a mim mesmo quando poderemos ter paz e sermos livres, quando vivemos presos aos (pre)conceitos da sociedade, e mais vale uma foto bem postada e dentes falsos à mostra do que um sorriso verdadeiro ao lado de pessoas de verdade, aquelas que sentem, mas sabem viver seus sentimentos e deles fazer proveito e aprendizado. Quantas pessoas se importam mais com sua popularidade que com sua sabedoria, com inteligência e cultura. que pobre que é isto, e que ricas ficam as redes sociais. 

Mas infelizmente, acredito que para podermos nos aprofundar nas artes da natureza, na sua sabedoria e na sua alma, um isolamento se faz necessário, para lavar a alma do dispensável e carregá-la de energia, mas as preocupações corriqueiras que carregamos, inutilmente, fazem cada tarefa ser um peso, ao invés de um agrado e um ato puro.


Paz, luz, e consciência sobre cada ato.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Preocupação ambiental em 1932

Olha que legal. A gente pensa que toda essa questão ambiental é muito moderninha. Mas em 1932, Tolkien comprou seu primeiro carro. Porém, em seguida, desistiu de ser dono de um carro por questão de princípios, por causa do efeito ambiental do grande número de proprietários e da maciça produção dos carros!

- O Dom da Amizade, Colin Duriez.

A perspectiva literária

É necessário recordar que, muito embora em um sentido o Outro Mundo era um lugar definido, ainda assim em outro sentido o reino dos deuses estava dentro de nós, a Terra e o reino das fadas coexistindo na mesma área do chão. Era tudo uma questão do olho que vê [...] O habitante deste mundo pode ficar consciente de uma existência num plano totalmente diferente. Ir da Terra ao Reino Encanto é como passar deste tempo à eternidade; não é uma jornada no espaço, mas uma mudança de perspectiva mental.

Dorothy L. Sayers – 1916.
Essa era uma colocação de perspectiva do mundo compartilhada entre os Inklings (grupo de intelectuais promovido por C. S. Lewis, com Tolkien e outros, na década de 30), que estabeleceu o padrão para escritos futuros dos professores.
Também levanta a questão de que a fantasia não é um mero escape da realidade, como consideram alguns críticos, mas um lugar-comum com possível de ser presenciado.

sábado, 18 de setembro de 2010

Anseios dos poetas

Sou eu quem caminha esta noite
em meu quarto ou sou o mendigo
que espreitava em meu jardim
ao cair da noite?

Olho ao redor
e descubro que tudo
é o mesmo e não é o mesmo...
A janela estava aberta?
Não havia eu já adormecido?
Não era verde-pálido o jardim?...
O céu era claro e azul...
e há nuvens
e está ventando
e o jardim está escuro e triste.

Penso que meu cabelo era negro...
Eu me vestia de cinzento...
E meu cabelo é cinzento
e estou vestindo negro...
É este o meu passo?
Tem essa voz, que agora ressoa em mim,
os ritmos da voz que eu costumava ter?
Sou eu mesmo ou sou o mendigo
que espreitava em meu jardim
ao anoitecer?

Olho ao redor...
Há nuvens e está ventando...
O jardim está escuro e triste...
Eu venho e vou
Não é verdade
que eu já adormeci?
Meu cabelo está cinzento...e tudo é o mesmo
e não é o mesmo.

Reli o poema para mim mesmo e captei a sensação de impotência e perplexidade do poeta. Perguntei a Don Juan se ele sentia o mesmo.
- Penso que o poeta sente a pressão do envelhecimento e a ansiedade que essa percepção produz - respondeu. - Mas isto é apenas uma parte. [...] Ele intui com grande certeza que há algum fator não mencionado, assustador por causa de sua simplicidade, que está determinando nosso destino. "

Trecho de O Poder do Silêncio, de Carlos Castaneda, que estou lendo agora. Terminando, escrevo sobre ele. Poema atribuído a Juan Ramón Jiménez.


Aliás, peço desculpas pela falta de posts e atualizações, mas é tudo culpa da faculdade, xinguem ela!!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Das melhores coisas...

Esses dias li uma antologia da Martha Medeiros! que maravilha de livreto! o escolhido foi "Topless", com uns 50 contos de uma das melhores escritoras gaúchas, publicados na Zero Hora entre abril de 1995 e junho de 1997. Apesar de já fazer mais de 10 anos, muitos dos temas tratados continuam atuais. Todos os textos têm um padrão de 3 páginas, o que torna-os bem rápidos de ler, mas o melhor é saber da opinião da autora, compartilhar de várias, se encantar com muitas outras, se emocionar com tantas. Ela sempre usa um tom direto, mas nada agressivo, sempre termina com uma frase chave no contexto, e se expressa muito bem, como era de se esperar pra uma mulher experiente na arte de escrever como ela. Sem mais delongas, vai ficar aqui um texto dela, que não está nessa coleção, mas que define bem o estilo. Bom proveito, afinal, bom é aproveitar das coisas boas!


(Salvador Dalí)

SIMPLICIDADE
Martha Medeiros

Cada semana, uma novidade.A última foi que pizza previne câncer do esôfago.Acho a maior graça.Tomate previne isso,cebola previne aquilo,chocolate faz bem,chocolate faz mal,um cálice diário de vinho não tem problema,qualquer gole de álcool é nocivo,tome água em abundância,mas,peraí,não exagere...

Diante desta profusão de descobertas,acho mais seguro não mudar de hábitos.Sei direitinho o que faz bem e o que faz mal pra minha saúde.Prazer faz muito bem.Dormir me deixa O Km. Ler um bom livro,faz-me sentir novo em folha.Viajar me deixa tenso antes de embarcar,mas,depois,rejuvenesço uns cinco anos!

Viagens aéreas não me incham as pernas;incham-me o cérebro,volto cheio de idéias!Brigar, me provoca arritmia cardíaca.Ver pessoas tendo acesso de estupidez,me embrulha o estômago!Testemunhar gente jogando lata de cerveja pela janela do carro me faz perder toda a fé no ser humano...

E telejornais...Os médicos deveriam proibir...como doem!

Caminhar faz bem,namorar faz bem,dançar faz bem,ficar em silêncio quando uma discussão está pegando fogo faz muito bem:você exercita o autocontrole e ainda acorda no outro dia sem se sentir arrependido de nada.Acordar de manhã arrependido do que fez ontem à noite,isso sim,é prejudicial à saúde.E passar o resto do dia sem coragem para pedir desculpas,pior ainda.Não pedir perdão pelas nossas mancadas,dá câncer,guardar mágoas,ser pessimista,preconceituoso ou falso moralista,não há tomate ou muzzarela que previna!

Ir ao cinema,conseguir um lugar central nas fileiras do fundo,não ter ninguém atrapalhando sua visão,nenhum celular tocando e o filme ser espetacular,UAU!!Cinema é melhor pra saúde do que pipoca.Conversa é melhor do que piada.Exercício é melhor do que cirurgia.Humor é melhor do que rancor.Amigos são melhores do que gente influente.Economia é melhor do que dívida.Pergunta é melhor do que dúvida.Sonhar é muito melhor do que nada.


(retirado daqui!)

E você, o que achou???
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